sexta-feira, 8 de novembro de 2013

O Homem das Sombras ("The Tall Man", 2011, Pascal Laugier) Um filme de horror onde a falibilidade de nossos pais os torna os monstros.

Diz o ditado que a realidade é mais interessante do que a ficção, mas os filmes, em sua maioria, sempre privilegiam a fantasia em detrimento da verdade. Acredita-se que um dos melhores filmes de horror de todos os tempos, O Exorcista, influente nos trabalhos dos mestres modernos James Wan & Rob Zombie mesmo quarenta anos após o lançamento, foi baseado na história real de um menino a quem Thomas Allen, autor do livro sobre o caso, chama de Robbie Mannheim. No filme do diretor William Friedkin, uma menina, filha de uma atriz famosa, é implacavelmente assediada por um demônio, após fazer amizade com um tal de "Capitão Howdy", ao mexer com a tábua Quija encontrada no porão. Os fatos reais que inspiraram William Peter Blatty a escrever o aclamado romance são bem distintos do que vimos no filme de 1973. Allen compilou os dados diretamente do diário de um dos padres envolvidos no caso, que começou discretamente em 1949, e escalou para implacável assédio. O livro de Allen, "Possessed", nos conta que Robbie (nome falso, dado pelo autor, para preservar a identidade das pessoas) era um garoto que morava com a família em Maryland, e que, sendo filho único, não tinha muitos amigos para lhe fazer companhia. Assim sendo, a sua tia Harriet ocupava uma lacuna em sua vida. Segundo Allen, foi a tia quem lhe apresentou uma tábua Quija, e o iniciou na brincadeira. Quando o menino completou treze anos, a tia morreu, o que o levou a mexer na tábua para procurar "contactá-la". O garoto começou a se comunicar com um espírito que se identificava como "Harriet", e fenômenos paranormais começaram a ser observados pelos cômodos da casa, quase na mesma época: rumor de marcha de pés, móveis se movendo, e um quadro com a imagem de Jesus sendo atirado da parede. Os eventos pioraram, e logo o fenômeno se concentrou no menino. O drama é revivido detalhadamente na obra de Allen, porém é uma das explicações que o autor dá ao mistério que mais me chama a atenção, e me faz pensar que por trás das hipóteses mais incríveis se esconde a realidade, com o horror que as fantasias apenas sonham reproduzir. A explicação, que rastreia a natureza dos fenômenos a um acontecimento que nada tem de fantástico, que em nada se refere a demônios ou a possessões ou a brincadeiras de copo, foi a resposta que fez os meus cabelos eriçarem, porque talvez a única coisa mais aterrorizante do que a fantasia seja mesmo a capacidade humana para a maldade. Farei menção a essa história mais tarde. Por ora, gostaria de discorrer um pouco sobre "O Homem das Sombras", uma joia rara que faz jus ao ditado: a realidade é mais estranha do que a ficção.

Escrito e dirigido pelo francês Pascal Laugier, "O Homem das Sombras" foi o consolo para o cineasta, que depois de ter criado o extremamente feroz "Martyrs", recebeu o convite para rodar o remake de "Hellraiser". Seu talento em alternar beleza de partir o coração com momentos de pura brutalidade o tornava o candidato ideal para interpretar a obra "The Hellbound Heart", uma história diferente de qualquer outra, dificílima de se vender ao grande público. Há uma entrevista de Laugier, na época em que rodou "O Homem das Sombras", onde conta como foi conhecer "Hollywood", após o sucesso de "Martyrs" no circuito de arte europeu. Segundo Laugier, a experiência o fez se sentir péssimo. Ele descobriu que o estúdio queria reformular todos os conceitos de Clive Barker, e transformar "Hellraiser", uma obra gótica e psicologicamente profunda, em uma trama estilo slasher movie. É claro que Laugier preferiu se retirar a destruir um filme que significava tanto para sua formação artística, e o projeto do remake "entrou no limbo". Depois do desentendimento entre a Dimension, detentora dos direitos autorais sobre a obra de Barker, e Laugier, o cineasta francês procurou esquecer o desapontamento escrevendo "O Homem das Sombras", um projeto original que sinalizou uma "mudança de tempos", uma maior maturidade artística. Se Laugier já havia causado forte impressão com o implacável "Martyrs", um espetáculo onde a agressividade física é quase tão irrefreável quanto a psicológica, em "O Homem das Sombras", o diretor exercitou a discrição e a elegância, fugindo da sanguinolência e carnificina, e montando as peças de uma obra onde o horror dá-se em um campo quase estritamente psicológico. Ótima notícia, afinal de contas, sabemos que os grandes filmes de horror, os melhores, jamais precisaram de brutalidade para agregar valor. Em w Delta z, por exemplo, um dos suspenses mais espetaculares da década passada, a Jean Lerner interpretada por Selma Blair raptava os membros da gangue que a haviam estuprado e os metia em armadilhas onde se viam obrigados a escolher entre salvar a própria vida ou a de alguém a quem amavam. Existia alguma violência, mas seu uso era circunstancial, um artifício para mover a trama para frente, porém nunca mais importante que o coração de seus personagens ou do que a jornada. O diretor Tom Shankland preferiu concentrar-se no dilema moral do protagonista, o tira veterano interpretado por Stellan Skarsgard, que apesar de se esforçar para se manter um homem bom, é devorado pelo remorso por ter destruído as provas que envolviam a gangue no estupro da personagem de Selma Blair e na morte da mãe. O personagem de Skarsgard sentia muita pena pelo que acontecera a Jean, e jurara encontrar os estupradores, porém ao descobrir que um dos homens que estivera no local havia sido seu amante, destrói provas para livrá-lo, "salvando por tabela", no processo, os canalhas que haviam cometido a barbaridade sexual. O amante de Skarsgard não tinha participado do estupro - era apenas um desavisado que costumava andar com a turma barra pesada, - e quando as coisas haviam saído do controle, ficara com medo de interferir, tendo escolhido esperar na sala com as mãos nos ouvidos, enquanto os selvagens barbarizavam Jean e a mãe. O tira, por sua vez, passara a vida "dentro do armário", e tinha medo de que a relação com o informante caísse no conhecimento dos colegas da força e expusesse a natureza de sua sexualidade. Quando os membros da gangue começam a aparecer mortos, alguns anos após o caso Jean Lerner, o personagem de Skarsgard sabe que logo chegará sua vez, pois mesmo indiretamente, aceita ser responsável, pelo menos em parte, pela tragédia da moça. A jornada dos personagens nos arrasta junto ao sufocante final, e "O Homem das Sombras" pertence a esta mesma linha de filmes, onde o conflito psicológico dos personagens jamais deixa o primeiro plano. Se sua premissa nos faz imaginar que teremos pela frente um suspense ordinário, sobre abdução de crianças por uma entidade sobrenatural, as reviravoltas da trama nos provam justamente o contrário. Espíritos e demônios passam longe deste filme de Laugier. O que há são monstros, sim, mas em uma apresentação mais incomum: o "monstro" representado pelo ser humano com quem trocamos cumprimentos nas calçadas ou temos uma conversa descompromissada enquanto bebericamos xícaras de café em uma lanchonete. O "monstro" como a pessoa que teve oportunidades de fazer a coisa certa, não o fez, e se vê irremediavelmente presa a circunstâncias que ajudou a criar. Jamais teremos inimigos mais implacáveis e terríveis em nossas vidas do que nós mesmos. Passamos uma vida inteira olhando por sobre os ombros, preocupado com outras pessoas e os males que possam nos desejar ou causar, mas dificilmente compreendemos que os nossos mais dedicados antagonistas nos "olham de volta" sempre quando paramos diante do espelho. Há quem não admita, contudo são as nossas escolhas que nos metem em nossos mais graves dramas. Escolhemos, e pagamos pelas más escolhas. Não são "os outros". Somos "nós". Da mesma forma que podemos (e devemos) ser os nossos maiores aliados - nos pondo sempre em primeiro lugar, prezando pelo investimento pessoal, o crescimento profissional e a evolução enquanto seres humanos - também podemos nos deixar apodrecer.

Cold Rock é uma cidadezinha que fica em Washington, bem depois das serras. Houve o tempo em que Cold Rock prosperou. Todos os homens trabalhavam com muita felicidade nas minas. Quando as minas fecharam, iniciou-se o processo de declínio moral, e com a crise financeira, veio a decadência da cidade. Dentro de alguns anos, Cold Rock estava praticamente varrida do mapa. Quase não existe trabalho, e até mesmo as escolas fecharam as portas. Cercada por serras altas e entrecortada por bonitos rios, a gélida cidadezinha parece existir sob constantes nuvens escuras e chuvosas, tanto literal quanto metaforicamente. Julia Denning (Jessica Biel) é uma das poucas pessoas de valor que persistiu. Ela era a esposa do médico local, um cidadão querido cuja recordação faz os habitantes rememorarem os bons tempos, quando as minas funcionavam a pleno vapor e as pessoas ainda tinham sua dignidade. Depois que o médico morreu, a enfermeira acabou assumindo seu papel, a primeira pessoa a quem os habitantes procuram quando sofrem de problemas de saúde. Os cidadãos que perduraram em Cold Rock parecem resignadas com seu destino. Enquanto os adultos afogam as mágoas na bebida, as crianças crescem sem a menor atenção dos pais irresponsáveis. Tracy é um ótimo exemplo de falência materna: uma manhã, ela procura por Julia, com as filhas Carol e Jenny a tiracolo. Carol está em trabalho de parto, e Julia consegue salvar o bebê. A adolescente Jenny (Jodelle Ferland) vive trancada no mutismo, e alivia as amarguras e desilusões em um diário, pelo qual se comunica com as pessoas. Julia fica furiosa com Tracy quando esta lhe conta que o pai do bebê de Carol é justamente o padrasto, um alcoólatra incompetente e abusivo que vivia "cantando" as meninas. Tracy diz que não vai deixá-lo, pois apesar de imprestável, o namorado é tudo o que tem. Para evitar o escândalo, Tracy despacha filha e bebê para viver com a irmã em Seattle. 

O filme é narrado por Jenny, mais especificamente pelos seus pensamentos, pontuados por amarguradas observações sobre a vida e os familiares que deviam inspirá-la, mas só a fazem pensar em deixar aquele lugar esquecido o quanto antes. Ainda no começo da vida, Jenny sonha com voos mais altos e uma existência longe de tanta dor. Tracy, Carol e Jenny estão voltando para casa com o bebê, e o carro passa ao lado de um outdoor de beira de estrada, onde vemos cartazes com fotos de muitas crianças, dezenas delas. O filme corta para uma série de segmentos jornalísticos, onde assistimos a moradores locais desesperados, falando sobre as crianças desaparecidas. As pessoas atribuem os sumiços a um homem muito alto que afirmam ter visto apenas de relance. O fato é que não foi apenas o fechamento da mina que fulminou o ânimo local, mas talvez principalmente o desaparecimento das crianças. Quem tem filho morre de medo de "quando o homem alto voltar a atacar", e quando ele visita a cidade, aqueles sortudos cujos filhos escapam à passagem do monstro agradecem a Deus. No restaurante do posto de gasolina, onde os cidadãos ainda se encontram, um dos rapazes sugere ao xerife que "Homem Alto" deve ser algum pedófilo. Naquela manhã, os habitantes de Cold Rock dão pela presença do Tenente Dodd (Stephen McHattie), virando inquieto xícaras após xícaras de café. Ele é o tira da cidade grande destacado para "derrubar" o "Homem Alto" e desvendar o mistério do sumiço das crianças, mas lamentavelmente não há pistas. Julia e os demais veem a Senhora Johnson, encostada `a vitrine, agasalhada, do lado de fora. As pessoas têm pena da Senhora Johnson: dizem que ficou louca, desde que o filho foi sequestrado pelo "Homem Alto" alguns anos antes. Julia oferece uma xícara de café para a solitária andarilha, mas ela não aceita e se apressa a deixar a estação.

Naquela manhã, Julia presta uma visita à casa de Tracy para ver como andam as coisas. Ela encontra Steve, o namorado de Tracy, que a trata de maneira hostil e a aconselha a cuidar da própria vida. Julia chama a atenção de Tracy quanto a sua permissividade, mas esta lhe responde que Carol e o bebê estão bem. Tracy expressa gratidão, mas conta que resolveu perdoá-lo. Julia se sente incrivelmente frustrada, e ao sair, topa com Jenny. As duas se sentam em um sofá abandonado, à beira das rochas, às margens do rio. Julia lhe dá um novo diário de presente, e Jenny escreve "obrigado" em uma das folhas. Aprendemos que Jenny não é muda, apenas teve um infância muito dolorosa, e por escolha deixou de falar. Julia insiste para que ela retome a terapia de fala. Em uma das páginas do diário velho, Jenny lhe mostra um desenho, um homem muito alto riscado de preto. No desenho, ela escreve "Eu o vi". Depois da visita, antes de pegar a estrada para descer a serra, os olhos da enfermeira absorvem o desânimo local, com pessoas muito humildes vivendo mal acomodadas, e crianças pequenas brincando do lado de fora de suas dilapidadas casas, sem nenhuma assistência dos adultos.

Julia mora em uma casa muito grande, deixada pelo marido. Ela tem um filhinho, David, um garotinho saudável, extrovertido e inteligente. Para ajudá-la com a criança, conta com a ajuda da secretária pessoal Christine (Eve Harlow, que dá a performance excepcional do filme). Apesar de crescer em um lar sem a presença do pai, o menino parece feliz, cercado pelos cuidados e as brincadeiras da mãe e babá. À mesa para o jantar, o barulho é de gargalhadas, os três contando o que fizeram no dia. David mostra uma mágica que aprendeu (e que funciona, podem testar!) e desafia a mãe: pense em um número, dobre-o, some a seis, divida por dois, menos o primeiro número que você pensou, e o resultado será sempre três!Lá fora, o rumor dos trovões distantes indica que uma noite de muita chuva e frio se aproxima das serras. Christine vai tirar as roupas do varal. Ao levar David para cama, Julia tem um momento de doçura com o filho, quando ele se queixa de que a mãe está sempre trabalhando muito, e queria que brincassem mais. Ela avisa que voltarão a brincar no dia seguinte, e lhe dá o beijo de boa noite.

Na cozinha, Christine conta a Julia que David perguntou por que não podiam ter uma televisão em casa. Aprendemos que Julia procura criar o menininho longe de influências externas, e o máximo que permite é a rádio. A enfermeira toma um copo de vinho antes de se acomodar no sofá para ler um livro, e não custa a cochilar. Quando desperta, escuta o rumor de conversas vindo da cozinha, mas então se dá conta de que se trata da rádio local. A casa está mergulhada no breu. Julia abre a geladeira para apanhar alguma coisa, quando se assusta ao se deparar com Christine ao chão. Ela parece levemente machucada, e foi amarrada e amordaçada. Ela solta a amiga, que está aos prantos, e ao procurar por David no quarto, não o encontra. A enfermeira então enxerga, parada na soleira e com o garotinho no colo, uma figura alta, metida em casaco escuro. Julia não identifica o rosto, mas assim que o invasor é flagrado, corre para fora, carregando o menino. Julia parte no encalço. A saída do canteiro para a estrada foi previamente bloqueada pelo invasor, para que Julia não tivesse como apanhar o carro para segui-los. O estranho coloca o menino em uma RV e acelera. Correndo como se a sua vida dependesse disso, Julia ainda consegue se segurar à porta traseira da RV, e o veículo segue à toda velocidade com a desesperada enfermeira dependurada do lado de fora. Em dado momento, o estranho parece se aperceber da presença de Julia, pois momentaneamente freia a RV para investigar. A enfermeira se alberga sob o veículo, e sem fazer barulhos, chega à porta lateral. Ao abri-la para pegar o menino, um cachorro feroz salta sobre Julia. Com a comoção e os latidos do cachorro, o estranho chega à cena e a tira de combate com um golpe que momentaneamente lhe rouba a consciência.

Quando Julia acorda, ela se vê com as mãos amarradas, e o cachorro ameaçador a vigiando, mostrando os dentes. Julia consegue se livrar das amarras, cortando-a contra uma superfície enferrujada do bagageiro. David encontra-se na cabine do motorista, ao lado do estranho, dormindo sossegadamente no banco do carona. A enfermeira consegue surpreender o "Homem Alto" e repentinamente saltar do bagageiro para segurá-lo por trás, para tentar controlar a direção. Enquanto a luta na cabine deixa a RV oscilando à toda velocidade pela sinuosa pista, o cachorro torna tudo ainda mais caótico, mordendo as pernas e as costas de Julia. A RV acaba colhendo um tronco caído no meio da estrada, e vira no ar. Com a batida, o enorme veículo sai rasgando o asfalto, até parar muitos metros de onde ocorreu o choque. O primeiro a deixar o veículo é o garotinho, que sai ileso. Em seguida, é o "Homem Alto" quem emerge e recupera a criança. O estranho deixa a estrada correndo. Mais abaixo na rodovia, quem testemunha a tudo é a adolescente Jenny, que por um acaso do destino passeava de bicicleta naquelas redondezas. 

Julia acorda e passa a perambular. Ao redor da pista deserta, só há serras e bosques, e o tempo esfriou bastante. O seu esgotamento é tamanho, ela volta a desmaiar, bem no meio da estrada. É quando surgem os faróis de um carro, que se aproxima vagarosamente. Um homem desce para socorrê-la, e vemos que se trata do Tenente Dodd. Julia conta a história, e não custa a Dodd acionar toda a força policial. Os agentes são destacados para fazer as buscas pelas principais rodovias. Dodd a leva ao restaurante do posto de gasolina, que permaneceu aberto pela madrugada. Algumas pessoas de Cold Rock estão reunidas nas mesas e cadeiras do balcão. Eles a ajudam a se sentar, e Trish, a senhora dona do lugar, a consola. Ela a aconselha a ir tomar um banho e se limpar no seu banheiro particular, para depois lhe contar o que aconteceu. Depois de se enxugar, da sala do escritório, Julia escuta ao xerife, muito por cima, conversando com um cidadão local. Eles estão discutindo, e alguém menciona que deviam "procurar primeiro na mina". A conversa chama a atenção de Julia. Outro fato que a deixa cismada é quando se depara com um pequeno oratório, onde Trish colocara as fotos de todas as crianças misteriosamente abduzidas pelo "Homem Alto", como que rezando pelo retorno dos meninos. A mais nova foto é a de David, o filho de Julia. A enfermeira reage com horror. Enquanto ela vai passando a vista pelo oratório, um cidadão assiste a tudo pela janela, do lado de fora, e ao retornar ao restaurante, avisa aos demais que Julia viu o altar e a foto do menino. Um deles, Steve, se oferece para ir buscá-la, mas um outro cidadão, mais comedido, pede para que esperem. Os habitantes ficam um tempo aguardando para que a enfermeira volte ao bar, e quando não aparece, se dão conta de que Julia fugiu pela janela do escritório. A turma se revolta, e após uma breve preleção no estacionamento do posto, separa-se em grupos para encontrá-la.

Acontece que Julia foi mais perspicaz. Ela pegou uma "carona" escondida no carro do xerife, que dirigiu à antiga mina fechada. Quando ele sai para fazer uma ligação do prédio abandonado onde funcionava o administrativo, Julia salta do carro e se esconde. O xerife eventualmente parte, só restando Julia no lugar. Ela entra no prédio, cujos corredores e salas encontram-se abandonados. Luzes muito precárias iluminam o interior, e à noite o lugar parece particularmente assustador. Há sinal de gente morando por ali, pois Julia é atraída pelo barulho a uma sala onde há uma televisão ligada. De relance, vê o filho, caminhando em direção ao antigo refeitório. Ela chama pelo garotinho, que não se detém. Pela vitrine, guarda-se uma excelente panorâmica da vastidão que rodeia a fábrica. O céu está platinado graças à chuva, e as árvores dos bosques parecem ter vida, por causa da brisa gelada que ao descer das serras as toca bem nas copas. Julia está para recuperar o filho, quando é derrubada pelo "Homem Alto", que a esperava rente à porta. O maior choque vem a seguir, pois quando "Homem Alto" tira o capuz, vemos que se trata de uma mulher, a Senhora Johnson. O "Homem Alto" abre os braços e David corre para o seu colo. "Mamãe", diz o garotinho, e a Senhora Johnson o consola.

A verdade sobre "Homem Alto" finalmente começa a aparecer. Julia está amarrada à cadeira, e a Senhora Johnson recapitula os eventos que a levaram a reencontrar o filho sequestrado. Tudo começou em uma noite tão ordinária quanto as outras, em sua sofrida vida. Desde o desaparecimento do filho, ela desenvolvera o hábito de sair à noite para perambular pelos bosques e as rodovias, para encontrar o homem responsável. Vez que uma das mulheres de Cold Rock dissera que tinha visto o "Homem Alto" à noite por duas oportunidades, a Senhora Johnson tinha passado a caminhar somente mais tarde, porque esperava cruzar o caminho do algoz, abduzindo o filho de outra pessoa. Quis o destino que fosse parar justamente nas cercanias da residência da enfermeira, erguida em uma região distante das casas dos demais cidadãos de Cold Rock. Foi quando o menino pôs casualmente a cara na janela que a Senhora Johnson o reconheceu, e foi tomada pela certeza de que não apenas havia reencontrado o filho, como também revelado a identidade do "Homem Alto": Julia Denning.

Depois da chocante descoberta, a Senhora Johnson procurou por Trish e relatou o ocorrido. Inicialmente, Trish não acreditou que a gentil e simpática enfermeira pudesse ser responsável pelo sequestro de crianças, mas a Senhora Johnson pareceu tão determinada que acabou por colocar dúvidas na cabeça da amiga. Foi por essa razão que Trish deixou o restaurante aberto: a Senhora Johnson disse que naquela noite iria retornar ao posto com o filho no colo, e provar que o "monstro sobrenatural" que trouxera tanta dor às suas vidas era justamente a suave e doce enfermeira, esposa do falecido médico local. Quando Julia apareceu com Dodd, todos já estavam de sobreaviso, aguardando pela chegada da Senhora Johnson. Foi por essa razão que ao dar pela fuga da enfermeira que os moradores se revoltaram. Eles não eram os vilões, mas apenas pais sofridos convencidos de que Julia estava metida no desaparecimento das crianças, e queriam saber  a verdade sobre o paradeiro das mesmas, a qualquer preço.

Depois de recapitular os acontecimentos do dia, a Senhora Johnson exige que Julia se abra e comece a contar para onde levou as outras crianças. A enfermeira responde que foi o "Homem Alto", eximindo-se de responsabilidade e não assumindo a culpa que obviamente lhe cabe, o que deixa a mãe furiosa. A Senhora Johnson lhe dá um forte tapa, e a acusa de ter feito uma verdadeira lavagem cerebral no filho. Ela a obriga a assumir perante David todo o mal que causou e admitir que não é a sua mãe. Em um momento de distração da Senhora Johnson, Julia acerta um murro que a deixa momentaneamente inconsciente. Ela se solta, e começa a perseguir o garotinho pelos corredores do prédio abandonado. Em razão de ferimentos Julia não tem como correr mais rápido. Quando acha que vai perdê-lo no labirinto de corredores, é Jenny quem subitamente aparece para segurá-lo. A enfermeira recupera o garotinho, e as duas se põem a fugir. Jenny aponta para um dos carros velhos abandonados da mina, e fazendo a ignição através dos fios, consegue dar partida.

Ao retornar para casa com o garoto a tiracolo, Julia é recebida à porta pela assustada Christine. Jenny fica aguardando por instruções, sentada nos degraus do alpendre. Este é o mais eletrizante momento de suspense. A evocativa melodia de duas notas evoca mistério, e permanece na sua cabeça até bem depois que o filme acaba. Julia diz a Christine que está tudo acabado, que logo a cidade inteira vai estar ali para linchá-las. Na cozinha, o garotinho tenta fugir,mas Christine o detém. Ela o encurrala em um canto, e o distrai enquanto prepara um injeção para fazê-lo dormir. Esta cena excepcional permite que a atriz Eve Harlow roube o filme das mãos de Stephen McHattie e Jessica Biel, os astros principais, e dê a melhor performance de todas. Enquanto distrai o menino para preparar a injeção, ela menciona o truque com os números, e pede para que a ensine novamente, porque não sabe como funciona. A combinação de desempenho afiado mais a melodia de duas notas de piano produz um momento mágico, onde você não sabe por quê, mas definitivamente se torna a cena pela qual passa a se recordar de um filme. No início de minha resenha, a montagem que os amigos podem ver no começo do parágrafo remete justamente a tal cena. É um pequeno instante que parece encapsular os temas do filme: infâncias perdidas, adultos incapazes de cuidar de seus filhos, pessoas vítimas de suas escolhas estúpidas, falta de perspectiva, boas intenções levando apenas a becos sem saída.

No alpendre, Julia ordena que Jenny trate de voltar para casa e não fale nada a ninguém. A adolescente escreve algo no diário e o levanta sobre a cabeça. "Leve-me a Ele". Julia diz que a adolescente não sabe o que diz, mas Jenny realmente parece resoluta em "encontrar" o "Homem Alto", talvez em razão de seu profundo desconforto com a própria vida, com a falta de perspectiva em Cold Rock e, mais importante, dentro da própria casa, onde é criada por uma mãe incompetente e um padrasto alcoólatra. Julia insiste que vá para casa e fique calada, pois um dia, pode ser que o "Homem Alto" lhe preste uma visita. A adolescente fica esperançosa, e obedece a Julia. Christine lhe diz que agora só lhes resta fugir, mas Julia deixa a entender que alguém precisa ficar para assumir a culpa. Ela "desce" o garotinho para o porão, na verdade uma passagem secreta servida pelo intrincado sistema de túneis oriundos da época das minas. Julia emerge sozinha, e não sabemos o que ela fez com o menino. Exausta, sobe as escadas para o escritório do falecido marido, para aguardar a chegada da população e a polícia.  A câmera passeia pelo interior do escritório, mostrando-nos uma porção de retratos de Julia ao lado do marido, atendendo a crianças da comunidade. Eles eram realmente queridos, especialmente pelos pequenos. A manhã chega, e Tenente Dodd a orienta a como proceder para deixar a casa. Pede para permanecer de cabeça baixa, não encarar os populares, e entrar imediatamente no carro da polícia. Antes de ser escoltada, Julia tem a dolorosa visão de Christine, que se enforcou por ali, o corpo balançando na ponta da corda. Por muito pouco, Julia não é linchada pelos habitantes, que finalmente a tomam como o terrível monstro que tanta tristeza trouxe a suas vidas. Ainda persiste, porém, o mistério. Onde estão as crianças?

Dodd e os homens descem ao porão, e descobrem a passagem que dá para os túneis das minas. Os túneis confluem em vários pontos distintos da floresta. Impressionado com a extensão dos caminhos, Dodd diz que Julia pode ter usado a passagem para enterrar desapercebida os corpos por porções diferentes do bosque. Dodd ordena que toda a região seja isolada, para que comecem o trabalho de varredura. A esta altura, Julia recebeu atendimento para os ferimentos, e Dodd começa a questioná-la. Ele diz que é inaceitável deixar os pais sem respostas.  Em uma sala de interrogatório, o tenente procura deixá-la à vontade, para que finalmente diga a verdade. Menciona o falecido marido, médico de Cold Rock de 1992 até a morte. Como médico, manteve a comunidade unida. O seu falecimento foi como o sinal para os maus tempos. Julia diz que quem mais sofreu com o fechamento das minas foram as crianças, nas mãos de pais que se tornaram alcoólatras e violentos. Dodd pergunta se Julia as levou para a "pequena cidade" que descobriu sob a propriedade, e Julia disse que sim, pois lá havia livros, brinquedos e músicas, e as crianças podiam ser felizes. Christine era quem cuidava delas, quando saia. Dodd retruca, afirmando que Julia teria dito `a Senhora Johnson que entregara as crianças ao "Homem Alto". Ele pergunta se existe algum homem a quem teria entregado os meninos, mas Julia diz que não, e que agiu sozinha. Assistindo ao desenrolar do interrogatório, muitos outros policiais ficam chocados com as revelações. Dodd pergunta se as crianças estão mortas, e se foi ela quem as matou. 

São dezoito crianças desaparecidas, e a polícia nem sabe onde começar a procurar. Não quando a área a ser varrida envolve túneis com quilômetros de extensão, e bosques tão extensos acima, com terras a perder de vista. Até onde a polícia sabe, David foi mesmo a vítima final. A última esperança de Dodd para conseguir pistas que os levem ao paradeiro das crianças ou de seus corpos pode vir pela intervenção da Senhora Johnson. Julia é levada sob custódia para um presídio federal, e Dodd pede para que a Senhora Johnson aproveite a oportunidade de conversar com a enfermeira para convencê-la a dizer tudo o que sabe. Em um encontro cheio de emoção, a Senhora Johnson diz a Julia que não consegue mais viver, que fica remoendo coisas em sua mente, cheia de saudades do filho. Julia responde que pode imaginar, pois se sentiu como mãe para cada uma das crianças que carregou. A Senhora Johnson afirma que o banco pode ter tomado a sua casa, morar no velho prédio da administração das minas por não ter lugar melhor, e estar desempregada, mas ainda assim morreria pelo filho e como mãe tem direito a reavê-lo. Julia menciona que o sistema faliu, que as crianças crescem desencorajadas e sem esperança. Ao contrário dos adultos, crianças vivem cheias de potencial e esperança. Os adultos deviam abraçar e nutrir esse potencial, mas continuam a deixá-las crescerem carentes e abandonadas, até se tornarem adultos igualmente problemáticos. Julia diz que foi por essa razão que se voltou contra o sistema burocrata, que impõe entraves a adoções, e apenas permite que o ciclo se repita. A Senhora Johnson escuta a tudo com muita dor, e ao término da fala de Julia, faz uma pergunta bem direta: as crianças estão mortas?Julia assente com a cabeça, e diz que os seus corpos estão enterrados nas florestas e nos túneis. Até mesmo no presídio, Julia é implacavelmente hostilizada. As outras presas prometem pôr as mãos na enfermeira para matá-la, tamanha a revolta causada pelos crimes.

Em Cold Rock, Jenny continua aprisionada a sua realidade de enormes tristezas e pequenas alegrias. Uma noite, ela é acordada pela confusão típica da mãe brigando com o namorado Steve. Desta vez, a briga fica particularmente séria, pois os dois estão trocando acusações do lado de fora. Steve quer que Tracy ligue para a irmã e trate de trazer Carol de volta. Quando Tracy se nega, o homem lhe dá um tapa, e nisso Jenny pula nas costas do padrasto. Steve consegue se desvencilhar e jogá-la de lado. Ao dar as costas, é apanhado em cheio por uma garrafada de Tracy, que lhe diz para nunca mais tocar na filha. Estatelado no chão, Steve passa a mão na cabeça e começa  rir ao constatar a que ponto chegaram. Tracy diz que ele não vale mesmo nada, e se junta às risadas. Jenny assiste a toda a banal degradação, abismada. Por muito tempo, achou que a mãe era a vítima de um canalha alcoólatra, mas agora, diante de suas risadas cúmplices, compreende que foi Tracy quem se permitiu degradar, e afinal de contas é tão ou talvez mais reprovável do que Steve. Ao ver os olhos da filha, Tracy compreende que a filha percebeu as suas contradições, e que fracassou como mãe. Cheia de dor, Jenny sai correndo, e Tracy abaixa a cabeça, envergonhada pela hipocrisia e cumplicidade com o algoz. Jenny caminha por um campo muito deserto e vazio, o rosto banhado de lágrimas, esperando ser finalmente "resgatada" pelo "Homem Alto". O visitante aparece, e a arrebata com muita rapidez, carregando-a por sobre os ombros bosque adentro. Ele a leva ao carro, deixado numa pedreira próxima, e pede para que se esconda sob o banco detrás.

Aprendemos que o "Homem Alto" é o marido de Julia. Na verdade, ele forjara a própria morte anos antes, para atuar como "Homem Alto". Nenhuma das dezoito crianças foi morta. O que Julia e o marido fizeram foi atuar em um intrincado esquema que viabilizava a adoção de crianças, livres dos entraves de um Estado burocrático, ineficiente e atrasado. Supõe-se que a organização tenha tentáculos por todos os lugares do mundo, e envolva o trabalho coordenado de centenas de milhares. Julia e o marido não passavam de um braço, facilmente substituível na grande ordem das coisas. Uma vez levadas, as crianças de Cold Rock receberam novas identidades, e foram adotadas por pessoas comuns que queriam ter filhos, mas biologicamente eram incapazes de os conceber. Julia assumiu a culpa por mortes que não existiram, para que a polícia jamais investigasse a fundo os sumiços, a ponto de conhecer o esquema. Com Julia assumindo a culpa, a Polícia presume a morte das dezoito crianças, cujos corpos jamais serão encontrados (até porque não morreram), e ela figura como a única vilã responsável por todo o sofrimento dos habitantes de Cold Rock. Mesmo sob  perspectiva da execução por injeção letal, Julia heroicamente sustenta a versão. Jenny é levada pelo "Homem Alto" para Washington, onde é apresentada a sua nova mãe, uma mulher rica, elegante e mais velha que jamais pôde ter filhos. O "Homem Alto" entrega à mulher rica o passaporte com a identidade de uma moça chamada "Vera Parker", que deverá ocupar o lugar deixado por Julia Denning e portanto receber todo o suporte da organização.

Intrigante filme de suspense lançado com pouco alarde em 2012, "O Homem Alto" simboliza a evolução artística de seu diretor, Pascal Laugier, que criou um nome para si após o filme de horror francês "Martyrs". Enquanto que em seu polêmico filme de 2008 Laugier criou algumas das imagens mais horrorosas e brutais já vistas no cinema, em "O Homem das Sombras" felizmente procura entrar em contato com a humanidade de seus personagens, e como um habilidoso artesão, nas linhas de um Brian De Palma, subsidia a excelente história com execução técnica perfeita. Visualmente, o filme é um espetáculo à parte, maravilhoso de se contemplar, tal qual um belíssimo quadro. Filmado em British Columbia, a terceira maior província do Canadá, as câmeras capturam em ângulos amplos a generosidade com que Deus tratou a região: rios, lagos e montanhas a perder de vista parecem criar o cenário perfeito para uma trama onde a desesperança é muito bem representada pela gelidez e o céu lúgubre que perdura sobre os personagens. Enquanto o seu filme anterior dependia demasiadamente de estilo, em "O Homem das Sombras" Laugier pôde relaxar e deixar que o seu maravilhoso elenco fizesse a maior parte do trabalho. De muitas maneiras, "O Homem das Sombras" obedece o mesmo formato de "Retratos de uma Obsessão", a obra prima de Mark Romanek e o melhor filme da carreira de Robin Williams. Em ambos os filmes, estudos de personagens, o espetáculo cabe a palavras, à interação entre os seus protagonistas, ao significado de instantes sutis, de reações, de olhares. Prova disso é uma brilhante cena em "Retratos de uma Obsessão" em que o personagem de Robin Williams vai prestigiar o garotinho Jake, e após o jogo de basebol, os dois saem caminhando vagarosamente pelo gramado, com as folhas amareladas caindo preguiçosamente, marcando a passagem das estações, outono à primavera, e Williams discorre um pouco sobre a sua própria sofrida infância e sobre o quanto os pais de Jake o amam e procuram fazer o melhor, mesmo que por vocês o menino ache que não: Romanek deixa a sua câmera sobre o tripé, parada, sem movimentos, sem inovações, deixando que o diálogo e as performances nos contem a história, sem distrações. Um grande cineasta sabe imprimir às lentes o seu ritmo e cortar as cenas na hora certa, porém também percebe quando deve deixar que performances e diálogos assumam o comando. Com um belíssimo roteiro a seu serviço, Laugier teve parte de seu trabalho abreviada por maravilhosos desempenhos e contundente história. Tudo o que teve a fazer foi posicionar bem as suas câmeras, e deixar que o seu talentoso elenco fizesse o resto.

Jessica Biel protagoniza o filme no papel da trágica heroína, e tem a oportunidade de dar um tour de force por uma montanha russa de emoções. O desafio foi muito arriscado, pois a atriz precisou "mudar" de nuances à medida que a trama se destrinchava. À primeira vista, começa como mãe dedicada e enfermeira socialmente engajada quanto aos problemas da comunidade; então se torna o "monstro" tão temido pelos moradores de Cold Rock, sob seus ombros o peso da responsabilidade pela morte das dezoito crianças; ao final, a vemos como uma mártir atirada à fogueira em nome de uma causa que até ao final julga nobre. Jessica Biel torna essa "jornada" muito verossímil e interessante, e jamais soa falsa em sua performance. Apesar do excelente trabalho, compreendo que o papel reclamava uma atriz mais madura. Sendo muito jovem, Jessica Biel não pinta a complicada personagem com a riqueza de tonalidades que um rosto mais maduro conseguiria, não traz a gravidade de uma Jennifer Connelly, por exemplo. "Julia Denning" é uma personagem cuja partitura oferece todas as notas que Jennifer Connelly aperfeiçoou muito bem. Assim que veio a grande revelação - Julia como a mentora do esquema secreto de adoção das crianças - Jennifer foi o primeiro nome que me veio à mente. Aos 43 anos, o seu olhar triste dá a sua persona uma tonalidade muito sombria e ilegível, que a torna suave, mas ambígua; doce, mas imprevisível. Ela é todas as virtudes e todos os segredos, encapsulados em um mesmo instante. Nenhuma outra atriz se mostrou tão eletrizante, intrigante, tal qual uma típica personagem feminina escrita por Clive Barker para os seus contos de horror noir. Ela é a mulher misteriosa sem nome, exibindo a piteira entre os dedos, mãos vestidas em compridas e justas luvas brancas de seda que sobem até um pouco acima dos cotovelos, as únicas peças que não tira mesmo para fazer amor, e que faz qualquer homem, mesmo os mais seguros, se desconcertar pela mera força de seu sorriso. Ela é uma fantasia de carne e osso, em forma de mulher, que pode virar uma borboleta gigante e colorida, e sair golpeando o ar com as asas, bailando entre flores, vivendo intensamente pelo prazo de vinte e quatro horas, o tempo que vivem borboletas, uma vez que deixam seus casulos. Jennifer é uma mágica de Clive Barker, e os dois nem devem se conhecer!Enquanto Kristen Bell devolve o Sol ao alto, e ilumina o dia com o seu sorriso aberto e o narizinho arrebitado, Jennifer Connelly faz o movimento inverso, expulsa-o, atrai as nuvens mais negras e pesadas, e substitui qualquer calor pela brisa gélida da proverbial madrugada. Ainda assim, que espetacular madrugada ela traz!Stephen McHattie interpreta Tenente Dodd, e há momentos que nos fazem pensar que ele será o "Homem Alto". Este talentoso ator, veterano de muitos filmes, vem colhendo o respeito e o reconhecimento por uma extensa carreira no cinema, e é uma importantíssima adição ao elenco. McHattie é um desses grandes veteranos, como Lance Henriksen ou Tobin Bell, que vimos em muitos filmes, e mesmo que eventualmente os seus nomes não nos ocorram de imediato, sempre nos deixam fortes impressões. McHattie recentemente protagonizou um outro magistral suspense rodado no Canadá, um artístico filme de zumbi com muita atmosfera chamado "Pontypool". Agora, é esperar para vê-lo voltar a brilhar em "Pontypool Changes", a sequência, que ainda está em fase de concepção. Jodelle Ferland interpreta Jenny, símbolo da inocência perdida, e pelos seus olhos pidões enxergamos que mesmo tão jovem já conhece as agruras do mundo: solidão, alienação, e carência compõem a sua realidade em uma base diária. A sua força, todavia, parece vir da adversidade, pois apesar de suas frustrações, ela dá um jeito de manter a chama da esperança viva, e ao final, os seus sonhos são atendidos, pelos caminhos mais inesperados.

Depois dessa extensa análise, acho que os amigos vão querer me perguntar: e quanto ao fato de se tratar de um filme de horror, "O Homem das Sombras" funciona?Sim, o filme funciona, talvez não pelas razões que inicialmente leve a crer. Apesar de brincar com a mitologia de uma entidade muito alta e sempre envolvida pela escuridão, atacando uma cidadezinha de tempos em tempos, e levando as crianças consigo a cada passagem, "O Homem das Sombras" é um filme de horror sem extraterrestres, monstros, assassinos, ou coisas do gênero. Quando chegamos ao final, não houve quase morte alguma, a não ser se considerarmos o suicídio da personagem Christine. Então, o que o torna tão evocativo?Bem, eu poderia citar a aura de mistério bem sustentada pelo diretor Pascal Laugier até o momento da grande revelação, ou a performance superior de Eve Harlow como Christine, em uma cena pivotal pela qual eu passei a me recordar do filme, ou a melodia triste de duas notas no piano, mas acredito que eventualmente a razão pela qual "O Homem das Sombras" seja um filme de horror tão sui generis não se deva exclusivamente a nenhum dos pontos anteriores. Eu acredito que "O Homem das Sombras" funciona pela natureza crível e contemporânea de seu horror. Os "monstros" não vestem as fantasias sadomasoquistas justíssimas de couro dos cenobitas, por exemplo, não foram invocados pela montagem da configuração do lamento, não são espetaculares ou fantásticos em suas bizarrices. Em "O Homem das Sombras", o rosto do "monstro" é surpreendentemente amável, e ele sempre se aproxima com sorrisos, intencionando o melhor. "Eles" são os pais, as mães, ou mesmo as pessoas que buscaram ajudar, mas parecem ter se esquecido da natureza do material que pavimenta o caminho à perdição: as boas intenções. Se o suspense que move a trama para uma conclusão chocante advém das pistas falsas que o roteiro joga no caminho, o horror somente nos acerta em cheio quando "O Homem das Sombras" chega ao terço final, e nos deparamos com a que ponto pessoas comuns com motivos superiores são capazes de chegar para fazer aquilo que julgam correto. Temos uma personagem principal que genuinamente se preocupou com as crianças de uma cidade em declínio, crianças que estavam crescendo em lares desfeitos. O seu marido era uma espécie de pilar da comunidade, e manteve os cidadãos unidos até a "morte". A zona limítrofe se situa em algum ponto entre a "morte" do marido e o fim das atividades nas minas, quando Julia rompeu com os parâmetros da vida anterior, e se transformou no "monstro", através da criação do mito do "Homem das Sombras", quando as crianças começaram a ser raptadas e os cidadãos a perder tempo buscando em razões sobrenaturais a resposta para as muitas perguntas. Que ela tenha raptado David, criado-o como filho ao longo de todos aqueles anos e mantido as aparências é de eriçar os cabelos. Como a personagem da Senhora Johnson coloca muito bem para Julia, ela pode ser uma mulher humilde ou não ter feito as melhores escolhas, mas o menininho ainda é seu filho, e o vínculo entre filhos e pais é indissociável e deve ser respeitado, acima de qualquer senso pessoal de justiça que mova a enfermeira.

Enquanto os nossos sentimentos pelos adultos da história jamais são uma constante, pelas crianças nós só lamentamos. As maiores vítimas circunstanciais de eventos incompreensíveis, elas veem as suas vidas transformadas em uma sequência de reviravoltas protagonizada por adultos, enquanto as suas cabecinhas tentam processar o significado de tudo aquilo. O diretor Laugier faz uma interessante montagem, no começo do filme, quando assistimos às pessoas de Cold Rock falando sobre o "Homem Alto", e entrecortadas entre as entrevistas de cidadãos, imagens de uma menininha, com uma boneca de pano, e um molequinho puxando o carrinho, passeando do lado de fora de suas casas, em lugares muito humildes, e desaparecendo no próximo segundo. A montagem é muito contundente, pois expressa a transição de espaços anteriormente ocupados para vielas vazias. Nós as vemos ali, tão ingênuas, puras, metidas em seus mundinhos mágicos onde só acham que existe o Bem, arrebatadas de um momento a outro, pagando caro pela ausência dos pais. É por este viés que "O Homem das Sombras" procura encaixar-se ao gênero, uma espécie de horror mais humano e possível. Ao substituir uma figura sobrenatural por uma jovem mulher bem intencionada porém sem freios morais, a história toca em medos que a fantasia jamais seria capaz de acessar. Em minha introdução, mencionei O Exorcista porque muito embora o filme de William Friedkin seja um dos melhores que há, a fonte literária de Thomas Allen, sobre os eventos que inspiraram William Peter Blatty a escrever o romance, contrapõe o horror fantasioso do filme ao terror da vida real, reforçando tudo o que escrevi sobre o estilo de "O Homem das Sombras". Falei que o poder do filme de Pascal Laugier se devia ao fato de se apresentar como um suspense bem executado mas formulaico, e então, a dois terços do final, apanhar-nos com uma reviravolta atordoante que nada tem de sobrenatural, porém muito fala sobre a falibilidade humana, certo?Não há dúvidas de que se vocês assistirem a O Exorcista, se divertirão e se assustarão e ao final poderão enxergar a mensagem de esperança com que Friedkin o encerra. Mesmo quarenta anos após o lançamento, O Exorcista conserva a sua crueza e os afiados momentos de terror, todavia uma vez que se conhece a história original, algo parece perdido quando da transição do romance para as telas. Imaginem só, lendo o livro de Thomas Allen, entre tantas hipóteses ventiladas, o autor sugere uma que nada tem de extraordinária, mas que me parece a explicação mais horrorosa para os eventos.Segundo Allen, a natureza do problema que assolou o garoto após a morte da tia parece psicossomática, dever-se ao que hoje os médicos conhecem como Síndrome de Tourette, uma desordem psiquiátrica que pode muito bem ter causado as manifestações observadas. Bastante revelador que todo o problema tenha se iniciado após a morte da tia. Para Allen, também é possível que a mulher o tenha maltratado, e o trauma tenha sido suficientemente maciço para que o menino automaticamente bloqueasse as lembranças e as substituísse pelo sentimento de culpa, o que pode ter gerado o gatilho que transbordou em todas as manifestações psíquicas, nada mais do que energia emocional. A possibilidade de uma criança inocente, ocasionalmente maltratada por uma tia a quem ama, sublimando os eventos de sua mente e pagando o preço da culpa é mais perturbadora do que qualquer fantasia imaginada, e aqui volto ao ponto de "O Homem das Sombras": o seu horror é mais próximo, e portanto mais familiar do que "extraterrestres" ou "cenobitas". Não há resoluções absolutas, mas sobreviventes que precisam fazer o melhor possível para prosseguir com as suas vidas. Depois de tanto investimento psicológico, de discussões sobre temas difíceis e pesados, "O Homem das Sombras" surpreendentemente termina em uma nota positiva e esperançosa. Como mencionei anteriormente, Jenny tem o desejo de se afastar de sua realidade atendido, e o diretor Laugier nos deixa um epílogo que parece reforçar que mesmo quando a vida lança coisas muito ruins sobre nossos colos, há outras muito boas a não se perder de vista, e não podemos nos concentrar apenas na parte ruim, pois assim a tornamos (a vida) toda ruim, e sabemos que não é o caso. Em parte, a vida é boa, ou melhor, muito boa.

Uma manhã, Dodd sobe a serra para fazer uma visita à casa de Tracy. Não traz boas novas. As buscas por Jenny não os levaram a pista alguma, é como se ela tivesse caído da face da Terra. Quanto a Julia, Dodd conta que a promotoria pretende entrar com uma moção pela pena de morte. Dodd compromete-se a encontrar Jenny e a encoraja: "aguente firme". A desiludida e maltratada Tracy responde "Venho aguentando firme há vinte e cinco anos". Muito longe do frio de Cold Rock, Jenny é uma nova adolescente, em uma excitante metrópole. Ela está tendo oportunidades de desenvolver o seu potencial em uma cidade cheia de possibilidades. Jenny parece mais madura, focada e inteligente, e pela primeira vez consegue sorrir à vontade. Ela trabalhou o trauma que a aprisionava no mutismo, e agora consegue se comunicar normalmente. Em sua narração final, diz que compreende e perdoa os erros de sua primeira mãe, que é grata pelo sacrifício de sua segunda (Julia), e que está se esforçando para ser uma excelente filha para a terceira, a senhora que a adotou, está lhe mostrando um mundo cheio de horizontes, e lhe diz que conhecimento abre todas as portas. Durante uma de suas caminhadas para a aula de artes, ao passear pelo Central Park, ela reencontra David, o filho da Senhora Johnson. Hoje, o menininho está sob os cuidados de uma nova mãe, que parece ser amorosa e doce, e o chama de Jeff. Há um instante muito breve, quando Jenny e David trocam olhares, e muito embora ela o reconheça no ato, apenas uma distante recordação passa pelos olhos do garoto. Crianças têm a impressionante capacidade de esquecer todas as confusões em que os adultos as meteram, ou as dores que lhes causaram. Os terríveis eventos pelos quais os seus personagens passaram parecem lhes resgatar a espiritualidade: os adultos, representados por Tracy, aceitam parte da responsabilidade pelos destinos infelizes de que tanto se queixam, e compreendem que de certa forma foi pelas suas escolhas pobres de julgamento que se viram metidos em suas desfavoráveis circunstâncias; as crianças, representadas por Jenny, conseguem perdoar os pais, amá-los mesmo levando em conta todas as suas falibilidades humanas, e seguir em frente, ainda que muitas vezes se sintam emocionalmente aleijadas. É a perspectiva de um novo dia que estimula pais e filhos a superarem as suas limitações e crescerem para se tornar pessoas melhores, convictos de que cada desafio deve ser visto meramente como mais um obstáculo a vencer, um novo passo em direção à luz.

Todos os direitos autorais reservados a Califórnia Filmes. O uso do trailer é para efeito meramente ilustrativo desta resenha.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Pulse ("Kairo", 2001, Japão, Kiyoshi Kurosawa) um contundente suspense onde a maior ameaça é a solidão de nossos tempos.

Neste impressionante e atmosférico filme de horror japonês, espíritos estão "transbordando" para o nosso mundo pela mais inesperada via: a internet. Mais do que um filme de horror, "Kairo" (termo que significa Circuito) explora diversos temas bastante atuais, e a cada nova exibição, detalhes desapercebidos surgem para nos convidar a profundas reflexões. Para contar a sua história, o cineasta Kiyoshi Kurosawa fez uso do recurso de tramas paralelas. Uma vez somadas as suas diferentes perspectivas, as tramas compõem um rico painel sobre a solidão e a alienação preponderantes na virada do século. "Kairo" inicia com a imagem de uma mulher encostada ao deck de um navio, os olhos perdidos na linha do horizonte, um céu sombrio, cor de chumbo logo acima. Aprendemos que a mulher, assim como as demais pessoas a bordo, é sobrevivente de uma misteriosa catástrofe que se abateu sobre o mundo e dizimou mais da metade da população. O filme, então, volta no tempo para nos contar como os sobreviventes foram parar naquele navio e para onde estão indo.

O primeiro drama envolve Michi, Junco, Yabe e Taguchi, quatro jovens amigos que trabalham em uma floricultura de Tóquio. Faz algum tempo, Taguchi não se apresenta ao trabalho. Ele tinha dito que estaria ocupado com um trabalho de informática, todavia quando uma semana se passa sem que dê sinal, os amigos decidem procurá-lo. É Michi quem presta uma visita ao apartamento de Taguchi, e o encontra ocupado com afazeres, no gabinete. Ele parece distraído, mas bem humorado. Ao ser perguntado se se sente bem, Taguchi responde laconicamente que sim, e conta que tem estado ocupado com o programa de computador. Ele diz que concluiu o trabalho, e que Michi pode pegá-lo da pilha de discos, logo sobre a mesa. Michi começa a arrumar o quarto bagunçado, porém ao ir se despedir de Taguchi, depara-se com o amigo enforcado. Enquanto Michi esteve arrumando o escritório, Taguchi discretamente deu cabo da própria vida, em plena sala de estar.

Em um café, os amigos trocam impressões sobre o ocorrido. Nenhum dos três pode se recordar de Taguchi deprimido, e até onde sabem, não havia razão aparente para tão tresloucada atitude. Só o disquete em que trabalhou pode oferecer alguma pista, e portanto o trio escolhe investigar o conteúdo. Quando o abrem, encontram uma imagem misteriosa, basicamente uma foto de Taguchi de costas, de pé diante do monitor. O zoom revela que, no monitor, a mesma imagem é reproduzida infinitamente. Os três também conseguem enxergar muito bem o que parece ser o rosto fantasmagórico de uma outra pessoa refletido. Produto da cultura que o concebeu, "Kairo" traz uma trama pontuada por momentos aparentemente aleatórios, peças que parecem não se encaixar, mas que dão ao filme um perturbador ar de impenetrável mistério. Naquela noite, uma das meninas se encontra a sós no apartamento, preparando o jantar e assistindo ao telejornal, quando entra uma matéria sobre uma mensagem na garrafa, jogada ao mar dez anos antes por um garotinho de uma ilha japonesa, que finalmente havia sido descoberta em uma praia da Malásia, mais de quatro mil quilômetros de onde a garrafa fora arremessada. Enquanto escuta a tudo, a moça prepara um café. Ao fundo, na televisão, o rapaz que tinha atirado a garrafa quando criança aparece dizendo que jamais imaginou que a mensagem alcançaria outro país, tampouco que receberia resposta. O sinal da televisão começa a sofrer interferência, até congelar na imagem do repórter. Algo nesta cena parece prenunciar toda a confusão por vir - fantasmas transbordando em nosso mundo através da internet - e a maneira incomodada e tensa com que a mulher reage ao incidente dá à cena um ar de antecipação, algo que se provará uma constante ao longo do filme.

A segunda trama oferece como referencial Ryosuke, um estudante de Economia que recentemente resolveu plugar no mundo da internet. Ele compra o pacote de um provedor, e do momento em que loga na rede, passa a acessar involuntariamente um website onde lhe são exibidas imagens ao vivo de pessoas solitárias, enclausuradas em quartos muito escuros. Elas ou não estão fazendo nada, ou caminham lentamente dentro de seus cômodos, em silêncio. Ao final da exibição, a tela escurece e o texto "Você gostaria de conhecer um fantasma?" surge. Ryosuke fica extremamente perturbado e imediatamente desliga o PC. Mais tarde, já adormecido, o computador se inicia sozinho e o modem conecta novamente a internet, retornando ao website. Ryosuke toma um susto ao ver as imagens de uma mulher com um saco preto na cabeça, sentada de frente para a câmera, como que esperando comunicar-se. Ryosuke arranca o fio do computador. Na manhã seguinte, no laboratório de informática, conta o ocorrido a um colega, que sugere que aquilo parece coisa de "hacker". Uma moça chamada Harue escuta a conversa, e se oferece para ajudar. Ela lhe dá instruções para que, da próxima vez que o incidente ocorrer, imprima a página, ou mesmo a adicione à pasta Favoritos, para que possam investigar a origem do website.

Voltando à primeira história, Yabe recebe um telefonema, cujo número identifica como o do apartamento do falecido Taguchi. Do outro lado da linha, uma voz metálica e sem emoção limita-se a repetir "Ajude-me, ajude-me". Yabe decide visitar o apartamento do amigo e verificar se seu computador foi deixado ligado. Aqui, cabe registrar que mesmo os momentos de quietude de "Kairo" são extremamente eficientes na propriedade de incomodar. O diretor Kiyoshi Kurosawa consegue perfilar o trabalho com sacadas sutilmente arrepiantes, fazendo uso para máximo efeito de elementos que potencializam a expectativa: fotografia e trilha são seus pontos altos, os maiores aliados. Assim como Tom Shankland fez com w Delta z, onde a fotografia melancólica do talentoso Morten Soborg, a esbanjar borrados neon verdes e vermelhos, literalmente se torna um personagem a parte de seu maravilhoso filme, Kurosawa soube fortalecer "Kairo" em tecnicidades e criatividade narrativa, sustentando a proposta de mistério. Os filmes de horror japoneses funcionam muito bem porque parece perdurar em suas atmosferas a sensação de convívio entre velhas lendas e novos valores. Enquanto o Japão é uma das potências econômicas mais modernas, os mitos e valores milenares convivem em uma base diária com a correria e a impessoalidade de Tóquio, onde suas enormes vias, atravessadas por milhares, transmitem uma poderosíssima sensação de transitoriedade e energia. Na estação de Shibuya, a rodoviária que suporta uma das maiores demandas de tráfego diário do mundo, a arquitetura de terminais moderníssimos é pontuada por ícones seculares de épocas distantes, tais como o cachorro Hachiko, imortalizado em uma estátua erguida em uma das cinco entradas. Bem em meio à agitação do século XXI, cidadãos encontram tempo para se encontrar e conversar neste ponto, símbolo de amizade e fidelidade incondicionais. O Japão parece um lugar especial, um mundo a parte, onde o que há de mágico, belo e milenar encontra a maneira de perdurar, tanto em espaços grandes quanto pequenos. Kurosawa soube fazer bom uso desta característica essencialmente nipônica.

Yabe está investigando os computadores no apartamento do amigo, quando ao ir buscar alguma coisa na sala, depara-se com Taguchi de pé, observando-o silenciosamente, bem no lugar onde foi encontrado morto por Michi. Yabe procura se comunicar, mas o amigo desaparece e tudo o que resta na parede é uma mancha com a forma de silhueta humana, semelhante a borrão de café. Entre os papéis de Taguchi, encontra uma folha com a palavra "O Quarto Proibido", o que não faz sentido. Yabe regressa para casa, caminhando solitariamente pelas calçadas do bloco, quando a porta de um apartamento lhe chama a atenção. A porta teve as bordas cobertas por fitas adesivas vermelhas, como que o autor da arte tivesse procurado isolar o espaço, manter "algo" dentro. Yabe rompe as fitas vermelhas e entra, quando encontra o fantasma de uma moça, que assim como ocorreu com Taguchi, materializa-se inicialmente como um borrão na parede e então adquire mais nítida forma. O fantasma começa a caminhar em sua direção, sem pressa alguma, marchando decisiva e vagarosamente, quase como um sinal de TV mal sintonizado. No dia seguinte, Yabe vai trabalhar, deprimido e calado, e quando as meninas perguntam como foi a sua visita ao apartamento, ele as ignora. Por todos os cantos de Tóquio, coisas parecidas começam a acontecer com frequência.

No trabalho, Yabe continua introspectivo. Michi insiste em descobrir o que está acontecendo com o amigo. Ela o encontra sentado no chão, no depósito das caixas, e insiste para que conversem. Yabe murmura que viu um fantasma, e balbucia qualquer coisa sobre "O Quarto Proibido". Pede para que Michi não entre nos quartos proibidos. Voltando para casa, em um distrito de fábricas, Michi vê uma moça subir as escadas de uma torre, e saltar para a morte, sem hesitar.

Em um outro lugar da cidade, Ryosuke continua a experimentar estranhos incidentes com a internet. Novamente, o modem conecta-se sozinho à rede, e volta `a moça com o saco plástico preto na cabeça, sentada em um quarto escuro. Ryosuke segue as instruções de Harue, e procura adicionar o website a Favoritos, sem sucesso. A imagem o deixa transtornado: quando o fantasma está para tirar o saco da cabeça, Ryosuke desliga o computador e arranca os fios. Ao retornar para o laboratório de informática, não encontra os colegas. De uma estranha maneira, as ruas e calçadas parecem mais vazias. Ryosuke acaba por reencontrar Harue no departamento de informática, e lhe conta que continua com problemas.Ela se oferece para acompanhá-lo e verificar pessoalmente o que está acontecendo. Enquanto espera que Harue arrume as coisas, um programa chama a sua atenção: uma série de pontinhos brancos, em perpétuo movimento, que ora se aproxima, ora se afastam, porém dificilmente se encontram - e, quando se encontram, "morrem". Harue lhe conta que o estudante que projetou o programa quis "reproduzir" a dinâmica de relacionamentos. Quando as pessoas começam a se aproximar, uma força parece momentaneamente repeli-las; quando se afastam em demasia, a força as aproxima, porém quase sempre impede que se conectem, e fatalmente quando os "pontos", ou pessoas, o fazem, destroem-se. Harue visita o apartamento do rapaz, e os dois começam a se conhecer melhor.

Na biblioteca da faculdade, Ryosuke volta a encontrá-la. Ela está folheando as páginas de um livro sobre fantasmas, e o rapaz pergunta se o tema traz relação com o seu trabalho no laboratório de informática. Harue o convida a visitar o departamento. Desde que haviam se encontrado pela última vez, o programa dos pontos brancos que ora se aproximam, ora se afastam, apresenta novos e misteriosos pontos, que parecem "engolir" os demais. Ela diz que as anomalias são como fantasmas, e acredita que o fenômeno está relacionado com o website de que Ryosuke tanto fala. Antes de deixar o laboratório, Harue lhe dá o seu número, e pede para que não hesite em procurá-la. 

Ryosuke dá pela presença de uma menina observando-o de um dos corredores da biblioteca. Um colega chamado Yoshizaki senta-se à mesa de Ryosuke e lhe diz que também enxerga a menina. Ryosuke acha que estão pregando uma peça, porém ao correr em direção à visitante, a mesma parece deslizar por entre os corredores, e desaparece. Ryosuke pergunta a Yoshizaki se sabe o que está acontecendo, e o colega o convida a tomar um chá. Yoshizaki conta que o que Ryosuke viu foi realmente um fantasma, e que agora os visitantes estão por todas as partes de Tóquio. Ele crê que quando morremos, nossos espíritos vão para "outro lugar". Ocorre que mesmo esse "outro lugar" tem espaço limitado, e que aparentemente atingiu a sua capacidade. Por não existir mais espaço para acomodar o volume de almas, elas encontraram o jeito de "transbordar" para o nosso mundo, através da tecnologia, das conexões da rede. Aparentemente, tudo começou de forma muito discreta, quando o primeiro fantasma apareceu em um cômodo de um prédio qualquer. Alguém deve ter dado pela sua presença, e selado o apartamento com fitas adesivas vermelhas nas portas e janelas, porém quando as obras de uma construção puseram o lugar abaixo, libertando o espírito, o efeito avalanche começou, e várias aparições passaram a "transbordar" por todos os lugares de Tóquio onde existem circuitos de internet. Segundo Yoshizaki, a passagem foi aberta, e não há como fechá-la. 

Michi e Junco estão assustadas, atônitas com o sumiço de amigos e familiares. A situação parece apocalíptica, mas surpreendentemente discreta, é como se o fim do mundo tivesse chegado sem muito alarde, mas com as suas consequências expostas por todos os lados. Michi atende uma ligação telefônica, e do outro lado uma voz metálica e monótona insiste "Ajude-me, ajude-me". Ali no trabalho, ela reencontra Yabe, mas para a sua surpresa o mesmo não passa de um fantasma, que se reduz `a mancha preta na parede. Junco faz a má escolha de abrir uma das portas seladas por tape vermelho, e Michi a encontra bem a tempo de salvá-la. Ambas enxergam muito claramente um fantasma, uma silhueta sombria muito alta e que se move vagarosa e espalhafatosamente. Junco é quem tem maior contato com o espírito, quem o encara, mas Michi consegue arrancá-la da sala, e as duas fogem.  

As pessoas que entram em contato com as aparições perdem toda a energia vital. É como se os espíritos lhes passassem uma doença terminal, na verdade uma profunda angústia existencial, que as impede de seguir vivendo, e as arrasta a um poço de solidão e amargura, do qual a única salvação parece ser a própria morte. Da mesma maneira que parecem condenadas à eterna solidão, as aparições também forçam as pessoas a enxergar o terrível vazio de suas vidas, e com isso aleijá-las de qualquer vontade de continuar existindo. Junco é transformada pelo encontro, e por mais que Michi tente resgatar a amiga, nada consegue fazer de significante para salvá-la do profundo desespero. Junco literalmente se transforma em um borrão escuro bem diante dos olhos de Michi, e quando o vento bate, as cinzas são carregadas como se nada fossem.

Ryosuke liga para Harue, mas não consegue contatá-la. Na faculdade, encontra o laboratório de informática abandonado, e cadeiras deslizando pela sala, como que gentilmente empurradas por mãos invisíveis. Ryosuke finalmente a reencontra ao visitar o seu apartamento, e ela parece muito mal. O rapaz procura animá-la, mas Harue insiste em falar sobre morte, e diz que hoje compreende por que sempre a temeu: porque, para ela, a morte significa a solidão eterna. Neste sentido, eles, os vivos, não difeririam tanto dos fantasmas, afinal de contas jamais conseguiam fazer uma genuína conexão em toda a vida. À essa altura, Tóquio se tornou uma cidade fantasma. O rapaz visita o shopping onde costumava jogar nas máquinas de videogame, e apesar de os aparelhos continuarem funcionando, não há sinal de pessoas. Uma aparição cruza sossegadamente o caminho de Ryosuke, vagando pelo salão de jogos sem rumo certo. Ryosuke propõe a Harue que ambos fujam da cidade fazendo uso do metrô. Eles sobem em uma das linhas, com a esperança de deixar Tóquio, mas depois de algum tempo de viagem, o trem estaciona em algum ponto dentro do túnel. Ryosuke corre para a cabine do maquinista para verificar o que se sucedeu, e Harue aproveita para saltar do vagão. Ela regressa ao apartamento, e finalmente tem um encontro com um visitante. Ao ligar o monitor, enxerga a si, como se houvesse uma câmera direcionada às suas costas, de algum cômodo do apartamento. Apesar de não haver presença física alguma, ela caminha diretamente ao ponto de onde o sinal é enviado, e sussurra emocionada que "não está mais sozinha", abraçando o fantasma que a observa.

Agora que quase todos morreram e o êxodo em massa terminou, os dois dramas se cruzam, quando Ryosuke casualmente encontra Michi, depois que seu carro dá o prego. Ele se oferece para consertar o veículo, e logo os dois se unem para tentar compreender o que aconteceu. Michi aceita ajudar o rapaz a procurar por Harue, e mais tarde a encontram em uma fábrica abandonada, vestindo o saco preto na cabeça, exatamente como as imagens do website. Antes que Ryosuke possa agir, Harue, que parece "contaminada" pela tristeza das aparições, puxa uma pistola e se suicida. Nada lhes resta, que não abandonar a cidade de vez, custe o que custar. Logo, a gasolina acaba, e o casal precisa parar em um posto. Ao se aventurar no estabelecimento para encher o tanque, Ryosuke depara-se com um fantasma. Decidido a não ceder `a presença das aparições, o rapaz a enfrenta, certo de que não passa de imaginação, mas logo percebe que a entidade a sua frente é muito real. Abismado, Ryosuke encara o misterioso visitante, que com uma voz robótica e indiferente lhe diz que "Morte é eterna solidão". Após o encontro, o rapaz perde qualquer vontade de continuar fugindo, e Michi tem de arrastá-lo de volta ao carro. O casal dirige por uma metrópole vazia e desolada, subtraída de qualquer sinal de vida ou normalidade. Agora, pretendem deixar a cidade pelo mar. Enquanto auxilia Ryosuke a descer o píer e se acomodar na lancha, Michi testemunha um grande avião descender dos céus com as asas em chamas. A aeronave se choca com a marina. Já lançado ao mar, o casal tem uma visão mais ampla do apocalipse que se abateu sobre Tóquio. Eventualmente, os dois são avistados por um enorme navio, tripulado por outros sobreviventes, e resgatados. Segundo os tripulantes, o fenômeno está sendo reportado em outros países, e aparentemente, o único lugar seguro parece ser a América Central, para onde o navio está indo. Uma vez a bordo, Ryosuke sucumbe à infecção e se desintegra em cinzas, deixando Michi sozinha para continuar sua jornada por um mundo incerto.

Um dos grandes filmes de horror do criativo cinema japonês, "Kairo" ainda é desconhecido pelo grande público, muito embora tenha ganhado até mesmo uma refilmagem americana em 2006, chamada "Pulse". Oriundo do profícuo período em que o gênero floresceu, está entre os mais memoráveis exemplares, ao lado de "Audition" e "Ringu". Consequência da cultura que o gerou, quando do lançamento, "Kairo" dividiu opiniões, e enquanto parte da crítica foi extremamente severa, outra o enalteceu pelo que representa, por mais que suas surpresas pareçam impenetráveis para o grande público ocidental. Revisitando o filme, ainda saltam aos olhos os pequenos elementos que soam inexplicáveis e aleatórios, mas que funcionam surpreendentemente muito bem, criando um tipo de expectativa eletrizante, alheia aos filmes ocidentais modernos. "Nada em suas duas longas horas faz o menor sentido", foi o que disse a Entertainment Weekly, a que fez coro o Village Voice, ao escrever "Ao menos, meia hora longo demais". Tempo de duração e muitas pontas soltas representam a fraqueza pela qual parte da crítica o repudiou, mas, ironicamente, também a força pela qual aqueles que o amam o enalteceram.

Filmes modernos têm furtado a nossa capacidade de investir a nossa atenção em histórias. O ritmo cada vez mais frenético e a falta de limites proporcionada pela avançada geração de efeitos especiais tornaram os filmes "menos filmes", e mais "eventos". Hoje, as produções lançadas no verão parecem feitas com o fim de superar umas às outras em termos de grandiosidade, efeitos visuais e sonoros, e emoções sustentadas por inovações tecnológicas. Com isso, o papel do cineasta, com a sua criatividade e visão, fica relegado a segundo plano, e logo mais deixará de existir. É como se os filmes tivessem deixado de ser dirigidos por artistas com paixão, e existisse apenas uma diretoria de executivos, que se reúne para criar um "empreendimento", um grande filme comercial de forte apelo cuja função será primordialmente "fazer uma matança" nas bilheterias, recuperar o investimento e superar o antecessor. A adição de criatividade ao suporte de grande estúdio parece mérito de poucos, pois a maioria dos cineastas modernos de talento precisa rodar os seus trabalhos dentro da escala mais modesta do circuito independente. Há homens geniais que conseguem habitar a fronteira entre o comercial e o artístico, trabalhar dentro do sistema dos grandes estúdios e ainda assim imprimir às suas obras a identidade, como é o caso do extraordinário James Wan, mas estes artistas são raros. Wan é um artista de visão que não "transgrediu", e muito embora crie obras muito pessoais, caiu no gosto dos estúdios mais importantes, pois lhes fez muito dinheiro. A Warner Bros. deu-lhe carta branca para fazer o que quiser após os dividendos colhidos pelo extraordinário "Invocação do Mal". De muitas maneiras, James Wan hoje é o "próximo Steven Spielberg", o "Steven Spielberg dos anos 70", que criou algo maravilhoso e pessoal dentro de um estúdio ("Tubarão"), e depois conseguiu manter a sua voz e a sua visão, mesmo que por vezes tolhido pelas demandas e compromissos de orçamentos milionários. Artistas igualmente especiais, mas cujas obras não traduzem o que os grandes estúdios procuram, correm "por fora", e no circuito de arte conseguem concretizar as suas visões e satisfazer as ambições, mesmo que o resultado não caia na graça do grande público ou tampouco gere dividendos de centenas de milhões em bilheteria. Obras duradouras como "Session 9", "w Delta z", "Hellraiser 01 &02", "Lords of Salem" e "The Tall Man" tomaram o gênero pela mão e o salvaram do lugar comum, reservaram respeito aos fãs e ofereceram algo de original, estimulante e polêmico, jogando mais perguntas do que respostas, levantando mais mistérios do que os elucidando, usando fotografia e trilha para máximo efeito. São "pequenos" filmes, rodados em cima de orçamentos moderados, que estimulam reações que as superproduções jamais sonham reproduzir, vez que financeiramente muito arriscado.

"Kairo" seria um destes filmes que "correm por fora". O filme de Kiyoshi Kurosawa jamais faria centenas de milhões nas bilheterias, ou mesmo atrairia a atenção de um grande estúdio que bancasse as ideias incomuns de seu diretor, sem questionar se as mesmas seriam aceitas pelo público que lota as salas de cinema. O circuito de arte é o seu lugar, foi lá onde colheu merecidos louros, e conquistou as pessoas que tiveram a sorte de esbarrar com esta joia do horror. O charme do filme foi tão inquestionável que mesmo um estúdio de envergadura se interessou em "recontar" a história, atenuando-a para o paladar ocidental. Foi a Dimension que adquiriu os direitos autorais para rodar o remake, cuja concepção iniciou-se no ano posterior ao do lançamento do original. Em 2002, Wes Craven esteve cotado para dirigir, mas foi somente em 2006 que a refilmagem chegou às telas, comandada pelo novato Jim Sonzero.  O resultado foi um bom filme de suspense, nada espetacular, apenas divertido, cujo maior percalço se dá ao desastradamente tirar respostas do chapéu e elucidar as pontas soltas de "Kairo". Em outras palavras, "Pulse" tentou recontar a história original e lhe dar algum sentido, chegando até mesmo a encontrar motivação para as fitas vermelhas utilizadas para bloquear os visitantes, um ponto que no original deixou as pessoas malucas perguntando o que tudo aquilo significava!Na refilmagem, as aparições são altamente estilizadas, extravagantes efeitos especiais que nos são canhoneados em tom azulado e sombrio, o que nos faz sentir saudades do minimalismo de Kurosawa: em seu "Kairo", a representação dos fantasma segue a linha teatral, barroca, simplista, o que me parece muito mais encantador e poético. No processo de adaptação, os seus realizadores se esqueceram de que o grande mérito do primeiro eram os becos sem saída. O motivo pelo qual chamara tanta atenção e merecera uma refilmagem devia-se ao fato de não oferecer respostas a mistérios. Ao procurar racionalizar as partes mais extravagantes de "Kairo" para torná-lo mais "palatável", os realizadores americanos trocaram as marchas e imprimiram uma agilidade que se mostrou incompatível com a gestação das ideias, resultando em um suspense por vezes atropelado, confuso e apenas regular. Seu maior mérito, talvez, tenha sido revelar o talento da adorável Kristen Bell, nas telas sempre cativante e esplendorosa com o seu rostinho lindo e o adorável nariz ligeiramente arrebitado; radiante com seu sorriso, simpatia e acessibilidade fora delas. "Pulse" a colocou no mapa, e desde então tem feito filmes cada vez maiores, tais como "Forgetting Sarah Marshall" e "When in Rome". Kristen ainda sucederá Sandra Bullock no posto de namoradinha da América, e então atriz de renome, podem acreditar. Ela consegue trazer o sol ao dia, basta um mero sorriso, e torço muito pelo seu sucesso.

"Kairo" agradará a pessoas abertas a novas experiências, que mais do que um sentido para a arte, buscam as emoções mais primitivas que um filme, um quadro, um romance conseguem evocar. Para aqueles que gostam de ter todas as suas perguntas esclarecidas, que fique claro: "Kairo" mais incitará o debate do que propriamente explicará o que se passou diante de seus olhos. Pessoalmente, compreendo que o filme funciona como uma meditação pessimista sobre a era das conexões e redes sociais, quando talvez ao invés de estarmos nos aproximando, estejamos projetando a imagem pela qual gostaríamos de ser vistos. Neste sentido, diferente de aproximar, a internet só estaria segregando, ou no mínimo criando a ilusão de uma "vida perfeita" que mascara a realidade, mais complicada do que perfis sociais possam levar a crer. Evidentemente, a internet é uma ferramenta importantíssima que permitiu que velhos amigos se reconectassem, e que compartilhassem com pessoas queridas miscelâneas de suas vidas, todavia também nos deixou acomodados à existência virtual, quando substituímos a convivência e o afeto humano por postagens e mensagens instantâneas. Sabemos que há mais envolvido em verdadeiras amizades do que meramente pertencer ou não à lista de contato uns dos outros, e de alguma forma, as redes sociais nos anestesiaram para o essencial. Talvez seja preciso tempo para enxergarmos a questão sob esta ótica, mas me parece que eventualmente temos que cair na real.

Claro que a interpretação acima é particular, e as pessoas poderão vislumbrar diferentes mensagens, ou mesmo mensagem alguma. Um colega me disse, "rapaz, li a sua resenha sobre Hellraiser, e nunca mais pensei sobre o filme da mesma maneira". Disse que eu devo ter "uma imaginação e tanto". Eu gosto de filmes que me movem a ponto de enxergar algo além do que meramente se passa na tela. Por outro lado, se vocês não querem pensar muito, mas apenas roer as unhas e curtir um filme de horror lento mas bastante enriquecido, sem sustos inesperados, porém permeado de imagens surreais e memoráveis, sem violência, contudo psicologicamente devastador, nas mesmas linhas de "Lords of Salem", por exemplo, "Kairo" é o seu filme. Agora que já me aprofundei o suficiente em "Kairo", deixem-me concluir a resenha com uma afirmação mais clara e direta, para os amigos que apreciam a praticidade: se vocês acham que conhece horror e não viram "Kairo", não sabem de nada ainda.

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