sexta-feira, 12 de junho de 2026

"Backrooms: Um Não Lugar".


Clark (Chiwetel Ejiofor) é um homem à deriva cuja vida parece não ir a lugar algum após um acrimonioso divórcio que o afunda num mar de dívidas, ódio próprio, ressentimento e amargura. Enquanto tenta evitar o naufrágio de sua loja de móveis, procura restaurar o equilíbrio interior com as sessões de psicanálise no consultório da Dr. ª Mary (Renate Reinsvee), uma psiquiatra com seus próprios esqueletos no armário. Quando certa noite perde o sono e desce ao depósito, ele descobre, acidentalmente, uma fenda na parede, uma passagem para uma labiríntica e misteriosa dimensão composta por uma interminável sucessão de ambientes vazios e amarelados cujos corredores e caminhos seguem indefinidamente rumo ao coração do desconhecido. O mistério desperta nova vida no homem, cuja desesperada busca por propósito acaba atraindo-o gradualmente ao abismo, arrastando consigo dois amigos desavisados e a psiquiatra, que descobrirão tarde demais que há mais do que a solidão para engoli-los uma vez cruzado o limite da passagem.

Tétrico e vagaroso filme de horror psicológico, "Backrooms: Um Não-Lugar" restaura um senso de atmosfera há muito não visto. Estilisticamente, relembra "Hellraiser: Renascido do Inferno", o filme original de 1987 de Clive Barker, no sentido de que o arco dos personagens os leva a uma jornada inesperada entre dimensões; uma, a sólida realidade conhecida como tal, a outra, um universo de novidades insólitas e sofrimentos indescritíveis a cada virada de corredor. Como pessoas problemáticas e incompletas, seus protagonistas anseiam por um escape para as frustrações; em "Hellraiser", Frank busca o prazer sem limites, já o Clark de "Backrooms" precisa de um novo horizonte onde, diferente das circunstâncias presentes, não se sinta tão perdido e só. A aventura através das salas e corredores inexplicáveis evoca uma sufocante e contraditória claustrofobia, afinal, embora os "backrooms" não tenham fim, provocam essa sufocante impressão de que as paredes vão gradualmente fechando cerco ao redor de seu corpo. Uma óbvia inspiração para o time de efeitos especiais foi "Hellraiser 2", o qual, dando continuidade ao primeiro filme de Barker, levava os protagonistas a um tipo de inferno que até então jamais havia sido capturado pelas lentes, uma reinvenção surrealista e enlouquecedora das pinturas do artista alemão M.C. Escher. Ainda nesta comparação entre "Hellraiser" e o filme do diretor Kane Parsons, as criaturas aparecem somente na medida certa para não transgredirem o mandamento de que "menos é mais". Quando Barker dirigiu seu filme em 1986, os cenobitas foram concebidos inspirados em esculturas eróticas fetichistas africanas e a experiência do autor num nicho muito específico da cultura gay, a do "bondage", do sadomasoquismo. Nada visto em cena havia sido gerado por efeitos visuais criados por computador, e sim por uma impecável colaboração entre o time criativo e a equipe de maquiagem e figurinos. O mesmo ocorre com "Backrooms". As criaturas, especialmente o inesquecível "Pirata do Clark", ganham vida com efeitos práticos e materiais executados bem diante das câmeras. O "pirata" não ficou assustador por razões previsíveis e cansativas de sustos repentinos; ele ficou terrificante pela aparência e presença desengonçadas, uma "coisa" magérrima e altíssima com uma cara chorosa e tristonha, numa inconstância imprevisível entre a obediência a seu "mestre", o Clark humano, e a explosiva agressividade de uma criança pequena, pela qual o gigante trai o criador e vira uma monstruosidade imprevisível à solta. Outro filme do passado a que se rende homenagem em "Backrooms" é "Alien – O Oitavo Passageiro", cuja sequência final, - a única sobrevivente correndo contra o tempo para abandonar a claustrofóbica nave Nostromo antes da autodestruição, em meio a uma escuridão apenas ligeiramente rompida por luzes aquosas avermelhadas e a uma cacofonia de sirenes e alarmes, - é recriada com a psiquiatra Mary tentando se desvencilhar dos braços do "pirata". A macabra trilha em áudio no teaser original de "Alien", de 1979, que soa como uma trombeta do inferno, é novamente evocada, mesmo que sutilmente, neste filme, especificamente durante a perseguição final no labirinto, quanto o monstro se encontra a um sopro de distância de agarrá-la.

As performances, uniformemente excelentes, são coroadas pelo desempenho brilhante do sr. Chiwetel Ejiofor, num papel muito dramático e artisticamente recompensador. Clark se sente frustrado pelo rumo que a vida tomou pós separação, e ao culpar exclusivamente a ex-mulher pelos fracassos causados pelos seus próprios péssimos julgamentos, não acomoda a mudança que teria salvo sua vida. O fato de não assumir a responsabilidade pela cota de coisas que o enfurecem - como o insucesso na arquitetura - requenta o rancor e a tristeza os quais o empurram para perto da "passagem secreta", como se o lugar fantástico desejasse se escancarar para indivíduos particularmente desencantados, psicologicamente exauridos e sem pontes reais com outras pessoas para amá-los, o mesmo magnetismo exercitado pela caixinha que removia o selo do real para o ingresso de Frank na dimensão sexualmente pervertida e superior dos cenobitas de "Hellraiser", ou a mesma melancolia e abandono dos quartos e corredores esvaziados do trágico hospital psiquiátrico abandonado, os quais vão lentamente tomando as rédeas da mente de Gordon, o instável imigrante irlandês chefe de uma equipe de Hazmat cuja jornada parece recriar capítulos específicos da história de uma paciente há muito falecida nas instalações, que ali chegara nos anos 50 como criança após ter chacinado a família a facadas, no estupendo "Session 9". A atriz Renate Reinsvee exala classe, elegância e empatia no papel da terapeuta com traumas pessoais a superar. Sua mãe sofria de problemas mentais, e a dor da infância pelos traumas vividos sob os cuidados de uma pessoa inconstante restou sedimentada num bloco de pedra com a pegada da mão, no cimento, tirada na infância, memento mori levado consigo para a fase adulta e que, ironicamente, acaba por salvá-la num momento crucial. É muito reconfortante vê-la em cena com Clark, pois verdadeiramente busca ajudá-lo, salvá-lo de si, até amadurecer e aceitar, na conclusão da estória, que algumas pessoas não querem ser ajudadas, talvez por terem se tornado criaturas para além da salvação, como, por exemplo, arquetipicamente falando, a terça parte de anjos que, tendo-lhes sido apresentado o plano original em sua belíssima perfeição, recusaram-se a servir. As coisas, às vezes, são como são e, para Mary, o destino trágico de Clark talvez deixe-a de assombrá-la quando acatar que não lhe cabe entender a completude, mas apenas ter fé e confiar, afinal de contas "a permissão divina da ação diabólica é um grande mistério, mas sabemos que Deus colabora em tudo para o bem daqueles que O amam". Aqui, vem-me à memória algo dito por um padre estudioso cuja carreira fora inteiramente dedicada ao ministério do exorcismo. Tendo ajudado tantas pessoas distintas ao longo da vida, comentava que uma constante nos casos era o fato de que, todas as vezes que iniciava sua luta contra o mal, e discorria bem diante dos possuídos sobre a beleza de como fora pensado o plano original, sua magnífica extensão, onde haveria lugar para todos, os detalhes dolorosamente lindos de cada elemento, e de como eles haviam rejeitado definitivamente tão incondicional amor, os demônios, mesmo em sua malícia, não se aguentavam, e respondiam gritando e chorando.

Muito foi dito sobre a fotografia e a grandiosidade do labirinto, porém ambientar essa estória em 1990 foi uma ótima ideia. Pessoas maduras se agradarão em rememorar o magnético, estranhamente delicioso sentimento de, mesmo que por um ínterim, verem-se de volta a um ponto ou lugar de suas jornadas. O filme "Corrente do Mal", por exemplo, também empregou muito bem essa alternativa de ambientação, imbuindo-se de uma atmosfera pouco vista desde os anos 70, reminiscente de clássicos queridos dos amantes do gênero, como "Halloween – A Noite do Terror". No caso de "Backrooms", a opção baseou-se em algo maior do que mera liberdade criativa. O filme fala sobre a importância dos lugares pelos quais passamos, das pessoas que encontramos e, talvez principalmente, da maneira como escolhemos nos recordar de eventos. O "labirinto" subjacente à realidade como a conhecemos foi ereto do material cujo substrato é o caldo revisionista com o qual teimamos em reescrever nossas próprias histórias e justificar velhos equívocos. A deformação, a estranheza com as quais essas coisas e pessoas ganham forma no labirinto atestam o abismo entre as coisas como o são de fato, e a incongruência ou má fé (ou ignorância) com as quais são reconstituídas em nossa mente e, concreta e estruturalmente, no "Não-lugar". Muitas discussões foram levantadas acerca da natureza do labirinto. Quando assisti ao filme, pensei imediatamente no conceito da "Dark web". Sabe-se que a internet, que "começa" em algum ponto dos anos 90, virou um mundo em si. Navegamos na internet, buscamos conhecimento, relacionamo-nos, entretanto, considerem: o que vemos não passa da ponta de algo infindável, sob a superfície. Isso significa que momentos de sua vida que passaram pela internet, de 1995 até ao dia de hoje, sem traços ou resquícios na "internet da superfície", foram preservados, como inseto em âmbar, sob a superfície, imerso no abismo sem fundo que seria a "Dark web". Se aplicarmos o conceito para a psique humana, o labirinto seria uma representação material do inconsciente coletivo, uma dimensão onde, de fato, imagens e símbolos inatos à experiência humana foram compartimentalizados em salas de escritório contendo reconstruções de momentos, lugares e pessoas de modo ligeiramente incongruente, podendo ser acessadas individualmente, dada a correta junção de circunstâncias, como aconteceu para Clark ao descer e reparar na parede.

"Backrooms" é uma bem-vinda adição ao gênero, num ano que tem sido maravilhoso para os fãs do horror da velha guarda, como prova a recepção calorosa que outro filme do tipo também recebeu, "Obsession". Estes sucessos também inauguraram uma encorajadora tendência, na qual pessoas que começaram suas criações artísticas no Youtube saltaram para as telas numa transição que não poderia ser melhor, provando que, afinal de contas, nos dias de hoje, com a inclusão como auspício pelo qual se vale à pena lutar, em se tendo talento e sonho, o sol finalmente raiou para todos.