segunda-feira, 25 de março de 2013

Gêmeos Mórbida Semelhança ("Dead Ringers", 1988): David Cronenberg e a diferença entre o que gostamos e o que realmente queremos.

Olá, pessoal. No esteio do que eu já havia feito com a minha última resenha, estarei abordando mais um clássico do diretor David Cronenberg, Gêmeos Mórbida Semelhança. Baseado em fatos reais, foi este filme de 1988 que elevou Cronenberg da categoria de diretor de filmes de horror à dos melhores cineastas em atividade, pura e simplesmente. Foi o primeiro trabalho em que abandonou o horror explícito de clássicos como A Mosca, Enraivecida e Filhos do Medo, e mostrou ímpar habilidade no comando de um thriller psicológico, gênero que a partir de então passaria a revisitar com mais frequência. Costumo dizer que me parece tolice abordar qualquer filme dirigido por este peculiar, maravilhoso diretor sem se compreender previamente de onde vem e o que propõe fazer com a sua arte. Por isso, recomendo a leitura prévia de minha resenha sobre Estranhos Prazeres, onde tive a oportunidade de discutir um pouco sua filmografia. Gêmeos Mórbida Semelhança também foi o o marco na carreira do ator britânico Jeremy Irons. No papel de irmãos gêmeos fisicamente idênticos, emocionalmente opostos, Irons comandou uma das melhores, mais complexas performances da década de 80, e, dois anos mais tarde, teve o talento reconhecido com o Oscar da Academia pelo seu desempenho em O Reverso da Fortuna. Importante mencionar que na ocasião do recebimento do prêmio, Irons comportou-se com muita graciosidade, vocalizando a gratidão pela oportunidade que Cronenberg lhe dera dois anos antes, mencionando Gêmeos Mórbida Semelhança com muito orgulho e saudando o diretor.

Gêmeos Mórbida Semelhança pode não caber categoricamente ao gênero Terror, mas sem dúvida as circunstâncias da estória e a forma como Cronenberg a filma o tornam aterrorizante. Parece particularmente pavoroso quando compreendemos que o filme foi baseado em fatos reais, abordados no livro Twins, de Bari Wood e Jack Geasland, sobre o caso Stewart & Cyrill Marcus, dois cirurgiões ginecologistas que dividiam clínica, apartamento e até mesmo as vidas íntimas, encontrados mortos no apartamento no East Side em Manhattan, aos seus prematuros quarenta e cinco anos de idade, em um bizarro caso cujas circunstâncias jamais foram inteiramente elucidadas. Quando a polícia entrou no apartamento, encontrou-o cheio de moscas, os corpos nus dos gêmeos em decomposição na suíte, e o lugar outrora luxuoso tomado por restos de comida, lixos e cápsulas de barbitúricos. Cronenberg utilizou o caso Stewart & Cyrill Marcus como base para o filme, e acrescentou elementos próprios de suas obsessões. O resultado foi este filme profundamente perturbador sobre quão pouco conhecemos os limites da mente humana, e como é fácil rompê-la.

Beverly e Elliot Mantle são irmãos gêmeos, cirurgiões ginecologistas e pesquisadores científicos de renome, que compartilham a prática da Medicina em uma conceituada clínica particular. Ambos são fascínados pelo sistema reprodutor feminino desde a infância. Muito embora fisicamente idênticos, eles são diametralmente opostos em termos de personalidade, Elliot é o extrovertido e Beverly o introvertido. Os dois vivem uma existência simbiótica, as fraquezas de um compensadas pelas qualidades do outro. Claire, uma atriz de cinema masoquista cujo ápice ficou para trás, procura pela ajuda profissional de Beverly, em razão de uma deformidade no útero que a impede de ser mãe. Logo, os dois começam a se relacionar intimamente, e o suave Elliot aproveita para se intrometer sutilmente na relação sem ser notado por Claire. Por algum tempo, a insuspeita Claire nada percebe, todavia mudanças comportamentais abrem seus olhos para o segredo dos irmãos. Quando descobre que foi para a cama com os dois em momentos distintos pensando se tratar de uma só pessoa, ela fica enojada com a situação, porém continua a se relacionar com Beverly, alimentando a dependência doentia do cirurgião pela sua presença, fazendo uso de toda sua bagagem de inferno emocional para laçá-lo. A obsessão de Beverly por Claire, mais especificamente pela peculiar deformidade em seu útero, acaba por provocar a ruptura no convívio simbiótico até então bem definido entre gêmeos, que entram em um espiral de drogas, loucura e assassinato.

O compositor Howard Shore, colaborador habitual de Cronenberg, novamente impõe a este trabalho a tonalidade melancólica e evocativa comum aos filmes do cineasta. Em particular, o trabalho de Shore com Gêmeos Mórbida Semelhança pode ser considerado o melhor momento desta parceria, que vem perdurando ao longo de todos estes anos. Como de se esperar, o filme tem o imaginário riquíssimo em fetiches e detalhes típicos de Cronenberg. Sua obsessão por mutações foi novamente reciclada - após perder a sanidade, Beverly se vê atraído irresistivelmente pela condição biológica incomum de Claire, o seu útero tripartite, e desenha instrumentos cirúrgicos em impressionante criatividade, ornamentados por detalhes espetaculares, que pretende utilizar para operar “mulheres mutantes”, como passa a se referir a Claire. Ele encomenda o trabalho a um designer de metais para viabilizar a confecção das peças, conforme os ousados desenhos originais. Aqui, faço a conveniente ligação entre os estilos de David Cronenberg e Clive Barker, sobre o qual discorri anteriormente na minha última resenha: os detalhes e as formas dos instrumentos cirúrgicos não diferem tanto dos apetrechos presos aos cintos de tortura vestidos pelos cenobitas masoquistas de Hellraiser. O interesse por fetiches permite que Cronenberg crie cenas carregadas de erotismo, ainda mais elegantes, quando insufladas pela melodia de Shore, belíssima. A primeira cena de amor entre Claire e Elliot é exemplo do que foi posto. Apesar de poderosa, jamais parece vulgar; ainda que bizarra e surreal, traz a mesma doçura que Cronenberg mostrou em uma produção anterior, no final de A Mosca, quando conseguiu evocar lágrimas em razão do triste destino do personagem principal, sacrificado pela mulher que o ama, em um gesto de compaixão. Em Gêmeos Mórbida Semelhança, Cronenberg põe a serviço da trama a capacidade de sintetizar a doçura através do grotesco: há paixão e cuidado na maneira como o personagem de Elliot (que ela acredita ser Beverly, mas em verdade é o outro irmão destacado) faz amor com Claire, há cautela na forma como a beija e a ama; paradoxalmente, há fetiche na maneira como Elliot amarra os pulsos e os tornozelos de Claire nas pernas da cama com tiras de borracha, os nós fixados por tesouras cirúrgicas esterilizadas de aço, na maneira como posiciona a amante para tomá-la. Esteticamente, esta cena, assim como muitas outras, enche os olhos, seu apelo muito devendo ao tétrico e ao mórbido. Brincando com o fetiche da submissão, Cronenberg consegue eletrizar o momento com embriagante erotismo, sem a precisão de exposição excessiva para tanto. Vê-se apenas Genevieve Bujold sentada frente a frente a Irons, sobre o seu colo, Irons de costa para a câmera, e as pernas dos dois, presas umas às outras por tiras de borracha atadas na altura dos tornozelos. Os seus pés atados pelas ligas de borracha, capturados pelas lentes de Cronenberg, compõem uma das imagens mais brutalmente eróticas concebíveis, pelas mesmas razões, talvez, que o imaginário de Clive Barker transborda semelhante e incomum sensualidade. Há algo na contraditória adição de fetichismo, doçura, humilhação e violência que gera a colisão fonte da energia primitiva e erótica que permite que cenas tais como as de drenagem de nutrientes e sangue em Hellraiser & Hellraiser II Renascido das Trevas ou Claire implorando a Beverly que lhe espanque e depois faça amor em Gêmeos Mórbida Semelhança mexam em lugares muito obscuros de nossa alma, que talvez não gostaríamos de visitar com frequência, ou mesmo admitir. Com a melodia memorável de Howard Shore que rege o primeiro encontro dos dois amantes, é um dos momentos mais humanos, sensíveis e profundos da filmografia de Cronenberg. Outro instante assombroso acontece com a cirurgia por videolaparoscopia dirigida por Beverly, quando já começa a apresentar sinais de abstinência e desequilíbrio. A forma como os cirurgiões surgem em cena, vestidos de batas vermelhas e escuras que os cobrem quase por completo, faz-nos pensar na Santa Inquisição da Igreja, as pessoas queimadas em fogueiras por nenhum bom motivo, não que exista motivo bom o suficiente para justificar tamanha barbaridade.

Da mesma forma que faria anos depois com M. Butterfly e Estranhos Prazeres, David Cronenberg centraliza a estória na deterioração mental de seus protagonistas, e no processo destrutivo engatilhado pelo apego e paixão. Em seus filmes, Cronenberg parece ter especial predileção por documentar o lento processo de autodestruição de pessoas emocionalmente instáveis, atordoadas por paixões incomuns que parecem cegá-las do início ao trágico fim. Em M. Butterfly, de 1993, Cronenberg novamente reuniu-se ao seu ator principal Jeremy Irons, para a estória de um funcionário da embaixada francesa em Beijing que se apaixona por uma misteriosa intérprete da ópera Madame Butterfly, cego ao fato de que na verdade o objeto de paixão trata-se de um homem travestido de mulher, espião a serviço do Partido Comunista. O personagem de Irons não consegue dissociar a paixão das evidências circunstanciais, e eventualmente traz para si toda sorte de desgraças que o levam ao suicídio. Em Estranhos Prazeres, o fetichista thriller psicológico sobre personagens sombrios obcecados por desastres de carros e o liame entre prazer e morte, paixão e apego novamente infligem dor, neste caso, ao líder do grupo de fetichistas, que se apaixona pelo personagem vivido por James Spader e não suporta perdê-lo para a esposa de Spader, interpretada por Deborah Unger. Nestes filmes, desvios psicológicos mórbidos e doentios de pessoas que deviam saber melhor as levam ao processo de morte. Os personagens ou os fatos que catalisam a autodestruição jamais estão ao alcance de seus trágicos protagonistas, de sorte que todos parecem condenados, fadados à tragédia desde o primeiro dia. Quando Claire descobre que foi enganada pelos dois irmãos, que se deitou com ambos, ela poderia ter se afastado para poupar o elo mais fraco, que começava a verdadeiramente se apegar, mas escolheu ficar para lhes dar a corda para que os próprios fizessem o servicinho sujo de degradação.

Em Gêmeos Mórbida Semelhança, a personagem de Genevieve Bujold é o incubus emocional que atua se aproximando do elo mais vulnerável da dupla, para pôr as suas vidas de cabeça para baixo e garantir que nada permanecerá como antes. Como predadora emocional, sabe que botões apertar para emular as reações que deseja de Beverly, o mais introvertido e reprimido. Ela liberta sentimentos que Beverly mantivera bem guardados dentro de si, talvez por vergonha, ou por não saber lidar com os mesmos, e a partir do jogo de afastamento e aproximação, incentiva-o a se arruinar em drogas. Bujold domina o show ao lado de Irons, criando uma personagem tão inesquecível e icônica quanto Deborah Unger em Estranhos Prazeres. A personagem, Claire é uma mulher perigosa. Pelo que Cronenberg nos mostra, podemos supor que houve o tempo em que comandou a atenção e as bajulações dos homens em face de sua beleza, porém estes dias ficaram no passado. O que ela perdeu de poder de barganha, compensou em experiência de vida. Ela é uma sobrevivente, uma mulher danificada e forte. A bagagem de vida a torna um ingrediente perigosíssimo para os irmãos Mantle. Como mulher, fisicamente mais frágil, sua única arma contra os homens que hoje não a olham da mesma maneira como flertavam no passado são os próprios sentimentos e inseguranças destes, e a psique vulnerável de Beverly é o espaço onde pode exercitar sua supremacia. Elliot, que aparentemente sempre pareceu o mais autoconfiante e resolvido, não consegue ficar imune aos joguinhos, pois nada pode fazer quanto à submissão voluntária do irmão à misteriosa mulher, e logo entra em rota de colisão direta com os próprios demônios, sinistros demais para serem vencidos. Enquanto em Estranhos Prazeres o instrumento da transformação era a colisão do metal, em Gêmeos Mórbida Semelhança o rompimento do elo que une os irmãos são as drogas. A dependência química é vista sob seu pior ângulo, sua face mais sórdida, impiedosa, destrutiva e imunda. Não há nada de redentor no espiral de decadência que leva os protagonistas ao homicídio passional, nenhuma chance de redenção que possa lhes servir como tábua de salvação.

Assisti a Gêmeos Mórbida Semelhança aos meus quatorze anos de idade. Apenas um garoto, sem a experiência de vida de hoje, já em 1994 pareceu-me um filme inquietante e incômodo por razões que na época eu não conseguiria explicar. Como mencionei anteriormente, não o considerei um filme de horror, mas um filme horrorizante. Genevieve Bujold me assombrou com o seu desempenho, em uma performance que acompanhada `a de Clare Higgins em Hellraiser deixou indelével marca em minha imaginação, principalmente levando em conta a idade que eu tinha quando vi os dois filmes, no início dos anos 90. As duas vestiam glacial elegância e faziam transparecer um magnetismo sem igual. Sim, eram duas mulheres bonitas, mas não conforme os padrões de beleza. Elas tinham o algo a mais que, talvez, Selma Blair, em w Delta z Matemática da Morte, tenha sabido recapturar décadas depois. O algo a mais nada mais era do que a coragem com que essas atrizes defenderam papéis corajosos que lançavam olhares mais honestos e corajosos `a parte da condição feminina que diretores preferem não falar a respeito. Se você assiste a um filme como o recente Para Sempre, com Rachel McAdams e Channing Tatum, compreende que os valores femininos mais admiráveis, representados pela protagonista, permitem os finais felizes que a vida real muitas vezes nos nega. Os filmes românticos são sucessos estrondosos pois alimentam as nossas expectativas, rechaçadas pela realidade brutal da vida prática e, lamentavelmente, pelas nossas próprias atitudes e escolhas. Há, todavia, uma diferença enorme entre como gostaríamos que as coisas fossem (os romances encantadores, as paixões correspondidas, o homem valoroso que te arrebatará nos braços como Romeu apaixonado para cuidar de ti, na frente de suas amigas, duas pessoas unidas prosperando juntas) e como efetivamente nos comportamos e o que secretamente buscamos (os relacionamentos viciados e masoquistas, amores não correspondidos, paixões impossíveis, o conformismo com a degradação nas mãos de um parceiro ou parceira sem sentimentos, e o horror de que os destacados as troquem por uma adversária mais jovem, bonita e perspicaz). Permitam-me dizer que Para Sempre é um excelente filme de amor, enriquecido por maravilhosas atuações (faço menção a Rachel McAdams e o excelente Scott Speedman como o ex-namorado que jamais a esqueceu), e que merece ser adquirido em DVD. Apenas estou ressaltando que há um diferencial muito grande entre estes filmes, entre como gostaríamos que fosse, e como efetivamente é. A coragem, a honestidade visceral catapultam as atuações de Selma Blair (w Delta z Matemática da Morte), Genevieve Bujold (Gêmeos Mórbida Semelhança) e Clare Higgins (Hellraiser) a todo um outro nível. Elas defenderam personagens femininos cuja concepção não fugiu à realidade cruel da vida, e talvez aí esteja a resposta sobre por que Gêmeos Mórbida Semelhança ou Hellraiser tenham me incomodado tanto, aos treze, quatorze anos de idade: porque as suas vilãs eram terrivelmente reais. Teria sido esclarecedor se alguém mais experiente tivesse me dado essa explicação em 1994, porém, pensando melhor, aos quatorze anos, eu não teria acreditado mesmo. 
Todos os direitos autorais reservados a Morgan Creek. O uso do trailer é para efeito meramente ilustrativo da resenha.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Estranhos Prazeres ("Crash", 1996) - David Cronenberg e seus perversos joguinhos psicológicos.

Olá, pessoal. Nesta oportunidade, tecerei comentários acerca de um de meus filmes preferidos do diretor David Cronenberg, Estranhos Prazeres. Baseado no romance de J. G. Ballard, e estrelado por James Spader, Deborah Unger e Holly Hunter, o filme foi rodado em 1995, e causou muita polêmica quando de seu lançamento no ano seguinte, tendo ganhado inclusive o grande prêmio do Júri de Cannes de 1996. É imprudente discorrer sobre um filme tão intrincado e de difícil digestão, sem antes falar sobre seu diretor, David Cronenberg. Cronenberg, um dos cineastas canadenses mais importantes do século XX, ao lado de Atom Egoyan, surgiu em meados dos anos 70, no cenário dos filmes de horror, com produções ousadas, surpreendentemente aprofundadas e psicologicamente densas demais para o gênero em questão. Diferente de seus contemporâneos, Cronenberg oferecia um tipo de horror peculiar que até então jamais havia sido visto. Em seus filmes, saltam aos olhos as obsessões que viriam a se tornar uma constante por toda a carreira: a carne e sua suscetibilidade a doenças, a interação entre corpo e mente e como um influi no outro, mutações, fetiches, doenças psicossomáticas que transbordam em manifestações na carne, crises de identidade e o horror da transformação. O seu primeiro filme notável, de 1975, foi o chocante Calafrios (“Shivers”), e já aqui, Cronenberg abordava uma de suas temáticas preferidas, a suscetibilidade do corpo humano a parasitas e doenças venéreas, em uma bizarra e surreal estória sobre uma infecção que toma conta de um condomínio de luxo em uma ilha no Canadá, deixando os moradores possuídos por incontrolável desejo sexual. O que se sucede é um massacre em massa, com estupros e assassinatos, enquanto os poucos imunes aos parasitas procuram fazer sentido do que está acontecendo. Em Filhos do Medo (“The Brood”), de 1979, ao atravessar um doloroso processo de separação, uma mulher neurótica, emocionalmente perturbada submete-se ao tratamento de um brilhante psiquiatra que encoraja o extravasamento de seus rancores e mágoas. A dor psicológica da mulher se exterioriza na carne, na forma de um útero externo que cresce no abdômen, e de onde começam a brotar os “filhos do medo”, criaturas deformadas, produtos de seus medos e ressentimentos. Foi um filme pessoal para Cronenberg, que à época atravessava um delongado e sofrido processo de divórcio e de batalha por custódia, e se sentia impotente ao ver a dor de sua filhinha, que nada tinha a ver com os equívocos dos pais, mas era justamente quem pagava o preço pelos problemas dos adultos. Em Gêmeos Mórbida Semelhança (“Dead Ringers”), Cronenberg direciona as câmeras aos cruéis jogos psicológicos entre dois irmãos gêmeos, brilhantes ginecologistas, que dividem apartamento, clínica, carreira e parceiras de cama, mas que entram em um espiral de loucura, obsessão e morte quando um deles, o mais vulnerável, apaixona-se por uma atriz de cinema estéril viciada em drogas. Em M. Butterfly, de 1993, era através do simbolismo provocado pela transformação da lagarta em delicada borboleta que Cronenberg falava sobre o horror da transformação sexual, na trama sobre um funcionário da embaixada francesa na China que se apaixona por uma encantadora artista de Ópera, e por décadas vive um romance extraordinário que o faz deixar a própria esposa e as responsabilidades na embaixada em Beijing, apenas para ser acusado de espionagem pelo governo francês, quando se descobre que a sua “borboleta” era, na verdade, o tempo inteiro, um homem, a serviço do Partido Chinês comunista, com interesses em documentos secretos sobre os planos dos países ocidentais para a Ásia, nos anos 60. 
 
Com Estranhos Prazeres, Cronenberg segue explorando parte destes fascinantes tópicos, revisitando novamente a desincompatibilização por vezes desastrosa entre carne e mente, e a transformação do corpo pela força da tecnologia, ou ao menos pela força do caos liberado pela sua destruição, o desastre de carros o instrumento catalisador. Em Estranhos Prazeres, James Spader vive um promíscuo produtor de cinema chamado James Ballard (homenagem ao autor do romance original, J.G. Ballard), que vive um casamento aberto com a esposa Catherine (Deborah Unger), e a encoraja a buscar por aventuras sexuais com outros parceiros fora do casamento. A momentânea distração lhe custa um terrível acidente automobilístico, mas escapa com vida, com ferimentos brutais. O casal que vinha no outro carro não teve a mesma sorte – o homem morre, lançado para a frente do painel, já a mulher, uma médica importante, sobrevive, com sequelas. A experiência transforma James profundamente, aguçando ainda mais a sua deturpada sexualidade. James se aproxima da mulher sobrevivente, a Dr. ª Helen Remington (personagem de Holly Hunter). Ela o introduz a um grupo de fetichistas que atua nas cercanias das vias do aeroporto internacional de Toronto, recriando famosos desastres automobilísticos. As pessoas que compõem o grupo acreditam que não há prazer sexual algum que chegue perto do momento do impacto entre carros envolvidos em acidentes, e a “remodelagem” do corpo humano pelo golpe dos metais reordenados pela força da batida. Estas pessoas têm uma espécie de líder, um predador sexual chamado Vaughan. James vê-se atraído por aquele mundo perverso, esquizofrênico e diferente de tudo o que viu antes, um mundo habitado por recriações de acidentes de estrelas de cinema (as mortes de James Dean e Jayne Mansfield), encontros sexuais arriscados e jogos psicológicos entre adultos ardilosos. Não custa a James e Vaughan se envolverem em uma relação homossexual, porém quando Vaughan se apaixona por James e este não retribui o apego, ele arrasta Catherine a um perverso triângulo amoroso, com consequências desastrosas. 

Não há um gênero definido para Estranhos Prazeres, mas é correto afirmar que me incomodou e perturbou profundamente, de uma maneira que filme de horror algum conseguiu fazer. Esteticamente, é um dos filmes mais lindos que assisti. A fotografia de Peter Suschitzky, colaborador habitual de David Cronenberg, passeia por maravilhas da arquitetura moderna, estacionamentos de garagens de aeroportos, hangares para aviões, largas rodovias de acesso, vias compridas a se perder de vista em Toronto, que pelas suas lentes parecem sempre simultaneamente atemporais e fantasmagóricas, belas e ao mesmo tempo indiferentes. Desta maneira, o filme jamais perde a sustentação do deslumbre que a arquitetura moderna e metropolitana consegue evocar, e enquanto vida salta aos olhos na forma do tráfego que flui suavemente pelas principais avenidas, os personagens deste filme habitam seus próprios infernos de obsessões e provocações psicológicas, todos frios e maquiavélicos, insensíveis e sexualmente desesperados, predadores à caça do próximo corpo onde possam descarregar seus orgasmos, nenhuma preocupação dada a doenças venéreas ou consequências. Criativamente, Cronenberg jamais foi tão ousado ou agressivo: este é um suspense movido pela sucessão de cenas explícitas fortíssimas, onde feridas expostas tais como pernas suspensas perfuradas por coroas de agulhas não são mais agressivas do que os incontáveis nus frontais e genitálias cheias de hematomas em cenas de sexo ousadas. Enquanto não há os monstros e as mutações dos outros filmes de Cronenberg, aqui, o horror advém dos joguinhos mentais, de provocações, de adultos que procuram apertar os botões de outros adultos, de parceiros sexuais que trocam fluidos corporais mas estão prontos a se atraiçoarem ou destruírem no próximo minuto. Ardilosos, os vilões de Cronenberg procuram aleijar os seus adversários através de suas fraquezas humanas; no jogo da paixão e do sexo promíscuo, vencem apenas os desapegados.  

 Deborah Unger dá a performance extraordinária do filme, no papel da glacial Catherine. Na primeira vez que vemos o casal, Cronenberg deixa clara a dinâmica liberal e patológica entre Catherine e James. Ela está de pé em um hangar de aeroporto, quando um homem se aproxima, aborda-a por trás, e começa a penetrá-la, sem nada acrescentar, Catherine cede à investida e encosta os seios desnudos contra o frio metal da asa de um avião menor, o que incrementa seu prazer; James está fazendo sexo oral em uma assistente de produção em seu próprio escritório, quando o colega procura pelo publicitário para a preparação da filmagem de uma cena. Quando James a encontra em casa, Catherine encontra-se na sacada da varanda, observando o tráfego em um frio fim de tarde. Os dois trocam confidências sobre as respectivas escapadas sexuais, e começam a fazer sexo. A natureza cruel destes personagens, a maestria com que jogam impiedosamente um com o outro, são o verdadeiro vínculo de Estranhos Prazeres ao gênero horror. Aqui, é o olhar clínico sombrio do diretor sobre relacionamentos em nossos dias a razão para o assombro e os arrepios que seguem conosco, mesmo depois do fim. Observando-os, a impressão que me ocorre é que estes dois mais parecem melhores amigos sexualmente perversos, obstinados a satisfazer seus desejos com o número máximo de pessoas, simultaneamente vivendo um casamento aberto onde sua ligação mais se assemelha a de parceiros de um mesmo time que fazem sexo e se conhecem como mais ninguém. Deborah Unger me impressionou pela performance elegante e silenciosa. Não há sentimentos altruístas por trás de seus olhos, sua Catherine é como um curvilíneo corpo, um saudável organismo deserdado de espírito, de sentimentos humanos de empatia ou paixão. James Spader exala sexualidade no papel de um caçador de experiências, emocionalmente congelado, morto, assim como a esposa. Holly Hunter também se saiu muito bem, com o pouco com que teve para trabalhar. A sua personagem, Dr. ª Remington, é vital para a iniciação de James Spader ao grupo de fetichistas que recria desastres famosos. A sua melhor cena com Spader se dá durante a reconstituição da morte de James Dean, ambos sentados em uma arquibancada à beira da pista, aguardando pelo início da reconstituição, e Remington lhe falando sobre as circunstâncias de quando e como conheceu Vaughan. A polícia do aeroporto subitamente realiza uma batida no lugar, e a turma precisa fugir pelo bosque. Enquanto se vê fugindo da polícia aeroportuária na companhia de seus novos amigos, que dão risadas de toda a situação, o personagem de Spader compreende que está definitivamente pisando em todo um novo terreno. Atravessou a linha divisória entre sanidade e pura loucura, e se meteu no jogo mais perigoso de sua vida. Rosanna Arquette completa o elenco principal no papel de Gabrielle, mais uma sobrevivente de acidente automobilístico transformada pelo trauma. Por causa do acidente, precisa usar uma espécie de caneleira metálica para andar. Ela ainda traz uma ferida que jamais cicatrizou, na parte anterior de uma das coxas, consequência da violência colisão. Depois que seduz o personagem de Spader, ela pede para que a penetre pela cicatriz aberta que, pelo tamanho e formato, lembra uma genitália feminina.

A ideia que Estranhos Prazeres defende sobre o conceito de prazer em muito lembra a obra literária e cinematográfica de Clive Barker. Tanto em The Hellbound Heart, quanto na adaptação cinematográfica dirigida pelo próprio Barker, a razão para a existência dos cenobitas revolve a redefinição do conceito de prazer através do infligimento da mais absoluta dor e das mais terríveis humilhações. A colisão entre erotismo e morte é uma constante na obra de Barker, a começar pelo primeiro encontro entre Frank, o desavisado hedonista, e os cenobitas. Posteriormente, estes elementos, dor e erotismo indissociáveis, voltou a causar forte impressão. Em Hellraiser II – Renascido das Trevas, um esquizofrênico com navalha em mãos despedaça-se violentamente ao passá-la freneticamente por todos os lados, sob a ilusão de que há vermes nos braços. Agonizante sobre um colchão, ele é apanhado por uma mulher sem pele – só músculos e sangue – que emerge do mesmo, envolve-se ao corpo mutilado como uma amante apaixonada, pernas enlaçadas na altura dos quadris, e passa a se alimentar de seus nutrientes. A cena se prolonga por alguns minutos que parecem durar uma eternidade, como uma luta penosa e gráfica com dois corpos desnudos expostos, até não sobrar mais nada do homem, que não uma casca drenada e morta tomada por pus, sangue e tumores, e a sua predadora, com os músculos mais bem definidos, mais bem nutrida. Poucos filmes trouxeram cenas de tamanha ousadia, talvez porque aqui Clive Barker foi o primeiro a escrever algo onde erotismo e sensualidade andam de mãos dadas à mais pura brutalidade. Ainda em Hellraiser II – Renascido das Trevas, há outra cena para rivalizar com a do colchão, simultaneamente incomum e erótica, quando um psiquiatra aliado à personagem principal é atraído a um ardil por Júlia (personagem da talentosíssima atriz britânica Clare Higgins) e morto por um beijo, quando ela conecta a boca a sua, e passa a esvaziá-lo. O modo como a cena é escrita e a forma como se desenvolve perante as câmeras fundamenta-se primordialmente na sobreposição da sensualidade pela humilhação, prazer pela morte. Há sensualidade na maneira como Júlia movimenta a cabeça, rítmica e sinuosamente, enquanto drena a vítima, mas também há humilhação e pena na forma como a vítima parece tão impotente apanhada pela própria morte, reduzida a gemidos sufocados, semelhantes aos de um cachorrinho chorando após um chute. O choque entre humilhação, morte e sensualidade é tão devastador quanto o da destruição das máquinas – e dos corpos - em Estranhos Prazeres. A afinidade de estilos entre Cronenberg e Barker é tão incontestável que em 1990 David Cronenberg deixou momentaneamente a usual atividade de diretor de cinema para atuar no magistral Nightbreed A Raça das Trevas, baseado no romance Cabal, de Barker, dirigido pelo próprio.
Retomando a análise de Gabrielle, sem muito mostrar, Cronenberg nos sugere que foi assim que a pobre garota foi atraída a aquele mundo desgovernado e insano: ela sofreu um acidente, Vaughan apareceu pelo lugar do desastre com a câmera, tirando fotos, para satisfazer a morbidez, posteriormente envolveu a mente vulnerabilizada de Gabrielle com as suas ideias perigosas, e o resultado da combinação entre trauma físico e abuso mental foi a personagem que conhecemos, com a cicatriz aberta na coxa pronta para a penetração, a caneleira metálica e a mente pervertida.

A trilha sonora do compositor Howard Shore, outro habitual colaborador de Cronenberg, merece nota. A sua melodia metálica e assombrosa combina com perfeição ao restante do quebra-cabeças que é este surpreendente e inesquecível suspense. Estranhos Prazeres reinventou o conceito de thriller psicológico, e nos lembrou que o mundo, em parte um lugar bonito e seguro graças às pessoas que conseguem enxergar além de si para honrar os valores verdadeiramente importantes na vida, também pode ser, simultaneamente, o recanto para almas cruéis e perdidas, dispostas a fazer males inacreditáveis ao próximo, em troca de coisa alguma, que não a satisfação de destruir. Para tanto, não farão uso de violência física, de ameaças claras. O verdadeiro horror, na verdade, advém de mentes astutas que elaboram joguinhos mentais ardilosos e maquiavélicos, que estudam quais os botões apertar para evocar as reações que desejam de outras pessoas. Em Estranhos Prazeres, assim como acontece na vida real, o apego e a paixão matam mais rápido do que uma bala.

domingo, 10 de março de 2013

Os Estranhos ("The Strangers", 2008): "Porque vocês estavam em casa..."


Olá, pessoal! Nesta oportunidade, tenho o prazer especial de tecer considerações sobre um dos meus filmes recentes preferidos, Os Estranhos. Estrelando Scott Speedman e Liv Tyler, Os Estranhos é um charmoso e nostálgico retorno ao horror dos anos 70, e foi dirigido por um novato muito talentoso chamado Bryan Bertino. O filme fez moderado sucesso nas bilheterias e a crítica o tomou pelo que de mais valoroso teve a oferecer – uma espécie de homenagem às produções de antigamente, quando, para se fazer um bom suspense, a atmosfera era praticamente metade do caminho, e a caracterização de personagens, a outra. Se os amigos prestarem atenção ao poster ao lado, a imagem os levará a crer que Os Estranhos se trata de algo datado, dirigido por algum daqueles famosos cineastas do gênero nos anos 70. Na verdade, do trabalho de arte do poster até à execução, esta foi a intenção do cineasta – a de resgatar o sentimento que os grandes diretores do passado conseguiam evocar em seu público, a de causar os mesmos arrepios sutis que os filmes antigos geravam, sem a necessidade de efeitos muito sofisticados ou de sanguinolência. O diretor Bryan Bertino alcançou o intento e realizou um feito louvável. A recepção ao filme parece ter se enquadrado firmemente entre dois polos, aqueles que o amam e os que o odeiam. Não há meio termo quanto a Os Estranhos. É muito importante destacar que aqui eu não estou desmerecendo a opinião de pessoas que não o apreciaram. Para alguns, a questão da movimentação da trama, do ritmo da ação, representa um caráter imprescindível a partir do qual a resposta que darão ao conjunto se baseará. Para outros, e eu faço parte deste grupo, o mais importante gira em torno de atmosfera, e se o diretor conseguiu provocar emoções fortes sem precisar exibir muito. Os Estranhos se encaixa na classe da atmosfera e do minimalismo, felizmente.

A Estória:

No começo do filme, somos apresentados a James e Kristen, os protagonistas, em silêncio e com expressões de constrangimento estampadas em seus rostos, aparentemente brigados, dentro do carro, esperando pelo semáforo em um cruzamento vazio qualquer, à noite, após uma festa de casamento de amigos. Por meio de flashbacks, o diretor nos explica a razão do estranhamento: é que James havia preparado todo o cenário para, na saída da festa, propor casamento e, depois, levá-la para um fim de semana de tranquilidade na casa de campo da família. Kristen, no entanto, acreditando que a proposta foi feita cedo demais, teve de dizer não. Claro que ela se sente culpada a respeito, porque jamais intencionou magoá-lo com a recusa. Apenas acredita que seria prematuro compromisso tão sério nesta altura do namoro. Quando chegam à casa de campo, romanticamente adornada para a celebração, vez que James acreditava que a parceira diria sim, os namorados voltam a conversar, apesar do constrangimento anterior, e não custam a fazer as pazes. A esta altura, quando se põem à vontade, é madrugada fechada. A casa de campo fica em um lugar bonito, porém isolado, tão afastado que, à noite, parece particularmente ermo. Depois da reconciliação, quando os dois estão se entendendo à mesa da sala de estar, alguém bate à porta. Os dois acham a situação muito estranha, contudo James vai verificar quem se encontra à porta. Para a surpresa do casal, encontram uma moça loira muito jovem, parada no alpendre. Não a enxergam bem, e quando James aviva a iluminação do alpendre por dentro, a lâmpada parece não responder ao comando. De toda sorte, a estranha pergunta se uma tal Tamara se encontra, e James lhe responde que ali não mora ninguém com o nome. A estranha insiste, “Tem certeza?”, ele diz sim, e a garota se despede “Nós nos veremos mais tarde”.

Uma pessoa que aparece na porta de sua afastada casa de campo a uma hora tão avançada na madrugada perguntando por alguém que não mora ali com um tom controlado e monocórdio típico de sociopatas seria motivo o suficiente para deixar qualquer um intrigado. Depois que a estranha parte, James e Kristen vão ao alpendre e descobrem que a lâmpada havia sido previamente desatarraxada, justamente para não responder quando tentassem ligá-la por dentro. Os dois voltam para dentro, ligeiramente enervados. James diz que apanhará a caminhonete para comprar cigarros e não deve demorar. Ainda com os nervos aflorados em razão do inusitado encontro anterior, Kristen pede que o companheiro retorne prontamente. Enquanto James se encontra fora, a garota loira regressa no alpendre, novamente perguntando se “Tamara se encontra em casa”. Logo, mais dois estranhos – uma mulher e um homem - se juntam à garota e começam a provocar Kristen, fazendo barulhos do lado de fora da casa, e escrevendo recados ameaçadores com batom, na face exterior das janelas. James retorna e encontra Kristen com os nervos em frangalhos. Pela janela, James enxerga a menina na estrada deserta distante, banhada pela luz amarelada frágil dos postes. Ele sai para procurar conversar, mas não há como reverter a situação. As linhas telefônicas foram cortadas, e as três pessoas mascaradas – duas mulheres e um homem – parecem ter marcado o casal para atormentá-los psicologicamente. Até que ponto estão dispostos a machucá-los é o que Kristen e James vão descobrir.

Pontos fortes:

Foram nas cenas mais quietas e sutis de Os Estranhos onde o diretor conseguiu criar momentos incômodos e arrepiantes. Na segunda metade do filme, quando o casal se vê sitiado no interior da propriedade, a marcha do ritmo é trocada e se torna mais iminente, todavia foi na primeira metade, quando o diretor limitou-se a criar atmosfera, que Os Estranhos mais prendeu a minha atenção, mais pareceu interessante. Do momento em que vemos os personagens principais no carro, esperando que o sinal abra no cruzamento vazio, ocorre-nos um inexplicável pressentimento de que algo ruim está em vias de se suceder. Quando a moça aparece no alpendre perguntando por informações, algo na interação entre a visitante e o casal faz os cabelos eriçarem. Trata-se de uma menina de aparência absolutamente comum, mas o modo como ela entoa a voz monocórdia, e pergunta se “Tamara está em casa?”, o modo como o casal consegue enxergar a sua fisionomia, saber que seus cabelos são loiros, porém não ver muito mais, permite que o seu sexto sentido - e o nosso - acuse que há alguma coisa errada em toda a situação. O que me pareceu inacreditável foi como, depois de uma surpresa semelhante, James se dispôs a deixar a casa, e a mulher sozinha, para comprar cigarros, bem no meio da madrugada!

Este é um filme sobre o que o medo faz com nosso julgamento. James tem um rifle em casa, e está bem albergado dentro da propriedade, mas os joguinhos psicológicos que os três mascarados impõem vão progressivamente minando a resistência do casal. Os visitantes não têm armas, apenas máscaras e a vontade ferrenha de atormentá-los. O casal toma decisões erradas e aparentemente estúpidas, todavia ao levarmos em conta a pressão mental a que estão sendo submetidos pelo trio de estranhos, perguntamo-nos o que teríamos feito dada a mesma situação.


Os Estranhos nos fala sobre como o medo nos coloca em um canto no qual não conseguimos pensar direito ou tomar as melhores decisões. Nestes moldes, vem-me a mente um extraordinário clássico de 1971, dirigido por Sam Peckinpah, chamado Straw Dogs. Em linhas gerais, Straw Dogs contava sobre um inteligente e pacato professor de matemática americano, que retorna com a esposa inglesa para a Grã-Bretanha, para a cidade natal da moça. Ali, a mulher reencontra um antigo ex-namorado, o hooligan local, e começa a flertar descaradamente com o sujeito. Bastante atraente, ela parece pouco valorizar o marido introvertido e pacifista. O professor de matemática interpretado por Dustin Hoffman é desrespeitado no curso do filme, pela esposa e pelos homens da vila, que o tomam como palerma. No entanto, é quando acontece uma situação adversa, próximo ao final, quando ele oferece guarida a um doente mental ameaçado de linchamento, os rapazes aparecem na porta exigindo que entregue o louco, e ele se nega, que o professor redescobre o valor como Homem e se posiciona diante dos hooligans, deixando claro quem manda ali. Quando os britânicos resolvem ganhar acesso à casa à força, descobrem que por trás da aparência cerebral e vulnerável do professor, existe um cão raivoso preparado para defender a si e suas posses. Dustin Hoffman usa das armadilhas mais engenhosas – e da mais pura violência – para derrotar os antagonistas. E mata a todos. Este magistral filme sobre o rito de passagem, quando o covarde finalmente se posiciona perante a vida e se torna Homem, e prova o seu valor diante dos valentões locais, fez-me repensar conceitos e compreender o que diferencia meninos de Homens. Assim como Os Estranhos, Straw Dogs discorria sobre como muitas vezes tão importante quanto tentar conviver pacificamente é defender ferozmente o seu território e princípios, estar preparado para o confronto que pode irromper a qualquer instante, e pronto para libertar o cão raivoso que de alguma maneira é inerente a todo Homem. Ah, e antes que eu me esqueça, sobre Straw Dogs: assistir a Dustin Hoffman executando friamente os hooligans é apoteótico, mas não chega a ser tão prazeroso quanto quando ao final, depois que mata os sete caras, escolhe pôr um ponto final no casamento e dispensa a mulher por quem um dia fora apaixonado e que o tratava como lixo, deixando-a sozinha para cumprir a sua sina de balzaca solitária e pílulas antidepressivas. Depois que ele matou os caras, eu pensei, Esse daí redescobriu a masculinidade; porém foi depois que ele deu o fora sem dó na megera e partiu deixando-a para trás, que eu conclui E agora, ele redescobriu a autoestima e a dignidade.

Atuações:

Os atores principais de Os Estranhos estão ótimos. Recentemente, eu vi o artista principal, Scott Speedman, e um outro filme chamado Para Sempre, uma estória romântica, sobre o desafio enfrentado por um jovem casal após um acidente automobilístico que a deixa sem memórias. Scott Speedman interpretava o ex-noivo rico da moça, que, aproveitando-se do fato de ela ter esquecido o seu grande amor, procura ganhá-la de volta. Em um papel secundário, Speedman tornou a sua participação muito interessante e agregou muito a Para Sempre. Naturalmente, Os Estranhos também deram performances extraordinárias, mesmo por trás de máscaras. No filme, vimos pouco da moça que aparece no alpendre. Depois, surgem vestindo máscaras esquisitas, e quase nada falam. O perfil silente e gélido do trio, a forma como quebram psicologicamente as vítimas, aos poucos, levam-me a pensar na analogia de gatos brincando com ratinhos assustados e encurralados. Os Estranhos são interpretados por Kip Weeks (o Homem), Gemma Ward (Dollface, a menina que aparece no alpendre antes da confusão) e Laura Margolis (Pin-Up Girl, a mais assustadora). Ao final do filme, não aprendemos muito sobre quem são aquelas pessoas por trás das máscaras. Penso que os três poderiam compor uma espécie de família que já vinha cometendo homicídios semelhantes ao longo dos anos. Pin-Up Girl parece uma mulher mais madura, de seus quarenta e poucos, neste contexto poderíamos tomá-la como a mãe; Dollface, a filha adolescente em sua primeira matança; o Homem, o pai. Caso os amigos tenham ficado curiosos, eis os atores por trás das máscaras:



 Considerações finais:

O diretor Bryan Bertino merece nossos aplausos pela realização de Os Estranhos. Utilizou uma premissa comum e batida, e a partir da mesma, construiu um filme diferenciado e atraente, altamente atmosférico e sinistro, incômodo ao nos fazer pensar que, no mundo, há pessoas capazes de fazer o mal aos semelhantes por nenhum motivo aparente. No final, quando a jovem pergunta aos três por que estão fazendo aquilo com os dois, a resposta vem nestas linhas “Porque vocês estavam em casa”. Os Estranhos provavelmente continuarão a jogar com os incautos, até o dia em que baterem à porta do professor de matemática errado.

sábado, 9 de março de 2013

Jogos Mortais ("Saw", 2004): Que comecem os jogos!


Olá, pessoal. Nesta oportunidade, eu estarei falando sobre Jogos Mortais, o suspense independente de 2004 realizado com orçamento modesto, que surpreendeu nas bilheterias, e revelou o talento do diretor James Wan, que mais recentemente fez Sobrenatural. Jogos Mortais e Jigsaw se tornaram tão populares, renderam tantas continuações, que após todo o sucesso, recaiu sobre o primeiro a mesma sina que se abate sobre outro extraordinário filme, Hellraiser: de alguma forma, a superexposição dos originais e o fato de os produtores terem procurado aproveitar ao máximo o que podiam drenar da ideia principal permitiram que continuações cada vez mais desnecessárias fossem se sucedendo ano a ano, deixando lembranças negativas que injustamente acabaram por impactar o primeiro, que todos parecem esquecer. Sobre a questão da superexposição, vem-me à mente o primeiro A Bruxa de Blair. Recordo-me que quando o filme foi lançado nos cinemas, em 1999, as pessoas saiam realmente sacudidas pela experiência. Parecia bastante real – muitas pessoas acreditavam que o trio de cineastas tinha se perdido mesmo na floresta, e depois mortos – e as resenhas o enalteciam pela criatividade, já que os criadores eram adeptos da tese de que é justamente aquilo que você não exibe ou enxerga que mais assusta. A única coisa mais apavorante que a bruxa te agarrando é, paradoxalmente, a ausência da bruxa. Não se enxergar a bruxa em meio a escuridão, mas apenas sentir que está por ali, à espreita, fazendo barulhos e guerra psicológica, parece muito mais angustiante. Alguns anos mais tarde, depois do celeuma do lançamento, e de uma péssima continuação, as pessoas voltaram-se contra A Bruxa de Blair. Um interessante filme de horror experimental acabou estigmatizado, vítima de seu próprio sucesso repentino e inesperado.

A série Jogos Mortais tornou-se sinônimo de criativas cenas de armadilhas, que vieram a se tornar o ponto alto das continuações, no entanto, as pessoas tendem a se esquecer que foi justamente no primeiro em que os testes de Jigsaw mereceram menos importância do que a estória de seus protagonistas. Aqui, o foco permanece na trama, e nos desdobramentos que a levam até a conclusão, onde tudo se explica. Sim, há cenas de armadilhas, porém os personagens parecem mais críveis e importantes do que o espetáculo de terror representado pelos testes de Jigsaw. Talvez não por menos, as continuações, gradativamente inferiores, por se basearem exclusivamente em valor de choque, não foram dirigidas por James Wan. Dois homens comuns, o oncologista Dr. Gordon, interpretado por Cary Elwes, e o fotógrafo Adam interpretado por Leigh Whannell, acordam em um banheiro abandonado, semelhante aos de rodoviária, presos na altura do tornozelo por correntes atreladas ao sistema de encanamento. Entre os dois, há o corpo de um terceiro homem, que aparentemente cometeu suicídio, e um gravador. Os dois estranhos descobrem fitas nos seus bolsos, com instruções de como jogar. Por uma série de flashbacks, o filme nos apresenta mais sobre o passado dos dois homens no banheiro, e por que parecem ter sido escolhidos pelo temível assassino a quem a imprensa batizou de Jigsaw. O ardiloso assassino jamais foi apanhado, apesar dos incansáveis esforços dos dois policiais dedicados ao caso, interpretados por Danny Glover e Ken Leung. O modus operandi leva Gordon a crer que ambos estão em um jogo arquitetado pela mesma mente doentia.

O que apreciei neste filme foi a habilidade que o diretor revelou ao entrecortar a estória principal com a intervenção de flashbacks e explicações que momentaneamente arrancam o filme do claustrofóbico ambiente em que o jogo se dá, e constroem o todo da estória, onde as partes são muito importantes e, somadas, dão sentindo ao conjunto. Nada é revelado antes da hora, e o diretor James Wan consegue manter a trama em curso sem jamais fornecer ou esconder demais, sustentando o ritmo até à surpreendente revelação final. Os personagens são bem esmiuçados, e as motivações parecem realistas. Surpreendentemente, o motivo de Jigsaw parece nobre: pôr em teste pessoas que não valorizam suas vidas, para que à custa de terríveis sacrifícios pessoais superem as armadilhas e as próprias limitações, e saiam vivas com a lição da gratidão. Assim como mostraria nos filmes seguintes, o diretor James Wan sabe como extrair grandes atuações de seus atores. Danny Glover e Ken Leung se destacam entre os demais, como Tapp e Sing, os dois tiras parceiros dedicados a descobrir a identidade de Jigsaw. Depois que chegam muito próximos do assassino, a ponto de inclusive rendê-lo, os dois se distraem por um segundo, o bastante para que Sing seja destroçado por uma inesperada armadilha, Jigsaw escape e Tapp saia dos trilhos, abandonando a força para se vingar com as próprias mãos. A bonita atriz veterana Shawnee Smith, presença fácil de filmes de horror e comédias dos anos 80, dá uma performance memorável, com uma personagem que, posteriormente, no decurso da série, viria a se tornar mais importante. A sua personagem, Amanda, é uma ex-dependente química e acometida pela horrível Síndrome de Estocolmo, única sobrevivente das armadilhas de Jigsaw, que acredita que somente superou o vício e passou a valorizar a vida por causa do que sofreu nas mãos do assassino. A breve cena com Amanda compartilhando com os investigadores o seu encontro e declarando amor por Jigsaw, pelo fato de considerá-lo o homem que a livrou da depressão e dependência é o grande momento do filme, aquele de eriçar os cabelos. Você não sabe pelo que lamentar mais, o fato de ela ter passado por uma experiência tão traumática ou as sequelas psicológicas que levou consigo após o sequestro, reveladas na Síndrome de Estocolmo, quando a vítima de uma enorme violência ou horror se apaixona perdidamente pelo algoz. Eu me lembro de um outro suspense psicológico que explorou a questão de maneira muito elegante, chamado Poughkeepsie Tapes. Este filme, Poughkeepsie Tapes, jamais foi lançado no Brasil, mas fez tanto sucesso pelos Estados Unidos que os dois diretores, John Erick & Drew Dowdle foram convidados para dirigir o sucesso Quarentena, a refilmagem do excelente suspense espanhol [REC]. Ainda sobre a personagem, uma curiosidade: o diretor James Wan contou que admirava esta atriz em particular, desde os anos 80, quando ela atuava naquelas comédias e slasher movies e ele ainda era um rapaz, e na época prometeu a si mesmo que se um dia se tornasse diretor de filmes, escreveria um papel para a sua artista preferida. O resultado foi a Amanda de Jogos Mortais.

Jogos Mortais foi o filme que inaugurou toda uma nova tendência para Hollywood, nos mesmos moldes de Hellraiser, o filme de Clive Barker. Jogos Mortais soprou novo fôlego aos filmes sobre serial killers; Hellraiser foi o filme britânico pelo qual ninguém esperava, e que, com as suas ideias sobre o quanto dor e prazer parecem faces da mesma moeda, propôs um novo estilo de horror, com personagens de profundidade, onde o surreal e o bizarro confundem-se facilmente com sentimentos bastante humanos e familiares, tais como cobiça, desejo e amores não correspondidos, e muitas vezes onde os monstros e o grotesco podem ser os bons - e os normais, os maus. Em comum, os dois sacudiram o gênero, porém, lamentavelmente, as continuações perderam o espírito, a essência do original. Costumo frisar que a única sequência de Hellraiser que guarda o erotismo, o fetichismo, o horror incomum e surreal do primeiro, é Hellraiser II – Renascido das Trevas (Hellbound: Hellraiser II). Ambos os filmes foram rodados no Reino Unido, e Clive Barker esteve envolvido na concepção e filmagem de ambos. Depois que os direitos sobre a obra foram vendidos a produtores norte-americanos, e o desgostoso Clive Barker saltou fora, a série virou uma sucessão de bobagens que nada têm a ver com a fonte original The Hellbound Heart. No caso de Jogos Mortais, apenas uma sequência me pareceu à altura do original, Jogos Mortais 6. Todas as demais continuações não merecem mais do que serem descartadas sem cerimônia.

Quero lembrar aos amigos que, hoje, é muito fácil encontrar o DVD de Jogos Mortais. Nas grandes lojas tais como Americanas você pode levar o filme por módicos R$ 15,00, quantia justa quando se leva em conta o excelente valor, o cuidado com que a Paris Filmes o tratou. Há extras, trailers, e a arte da caixa ficou fantástica, uma acertada compra para os fãs de horror. Ainda, recomendo que procurem por Poughkeepsie Tapes. Encontrá-lo integralmente na internet é fácil, infelizmente não sei de versões com legendas em português. Poughkeepsie Tapes é apresentado como um documentário, uma espécie de “episódio especial” do extinto Linha Direta, sobre um assassino serial que vem brutalizando e desmembrando mulheres ao longo das décadas, sem que a polícia jamais consiga chegar perto de sua identidade. Ao longo dos anos, ele forja provas que erroneamente levam os investigadores a um policial, que inclusive chega a ser executado por injeção letal, apenas para se descobrir posteriormente que não era o referido assassino. Assim como em Jogos Mortais, ele deixa uma sobrevivente, uma moça abduzida anos antes, mantida em cárcere, que ao retornar à vida, não consegue mais se adaptar em face da ausência do psicopata por quem veio a se apaixonar. O formato de documentário de Poughkeepsie Tapes, que faz crer que tudo o que se vê é um caso real torna a experiência ainda mais arrepiante.

Ao final desta resenha, reforço o valor de Jogos Mortais como uma excelente pedida de suspense/horror, albergada pelo suporte de atuações inspiradas, roteiro bem amarrado e original e, principalmente, a visão de um cineasta que veio para oferecer algo a mais a todos nós que curtimos este tipo de espetáculo. Eu me sinto seguro em afirmar que o nome de James Wan merece figurar ao lado de tantos outros diretores de cinema que tocaram a minha vida de maneira incomum, e me inspiraram a me expressar através da escrita, a quem aprendi a amar, a quem devo os melhores momentos de minha infância/adolescência, crescendo: David Cronenberg, John Boorman, John Frankenheimer, Brian De Palma, Dario Argento e, principalmente, o maior dos maiores, o Sr. Clive Barker. Espero um dia escrever um post onde poderei falar por que os amo tanto, mas fica para a próxima. Por ora, convido-os a Jogar os Jogos Mortais do excelente James Wan.